segunda-feira, dezembro 17, 2007

Religião e (in)felicidade

Sobre o inferno escreveu Tomás de Aquino: "Aos bem-aventurados não se deve tirar nada que pertença à perfeição da sua bem-aventurança. Ora, cada coisa conhece-se melhor pela comparação com o seu contrário. E, por isso, para que os santos tenham mais satisfação na bem-aventurança e dêem por ela abundantes graças a Deus, concede-se-lhes que contemplem com toda a nitidez as penas dos ímpios."

Muito antes, Tertuliano, Padre da Igreja, tinha escrito: "Que espectáculo grandioso! Exultarei, contemplando como tantos e tão grandes reis, dos quais se dizia que foram recebidos no céu, gemem nas trevas profundas. A visão de tais espectáculos, a possibilidade de que te alegrarás com tais coisas - que pretor ou cônsul ou questor ou sacerdote poderá oferecê-la, por muita generosidade que tenha?"

Não duvido de que subjacente a estes textos se encontra a ideia de que um dia será feita justiça. A injustiça é intolerável. Mas, sub-reptícia e inconscientemente, aninha-se neles muito sadismo. A crença no inferno foi uma das polícias mais eficazes de todos os tempos. No entanto, o inferno não faz parte do Credo cristão e só pode pregá-lo quem nunca meditou no mistério insondável da liberdade humana, mergulhada nos condicionamentos da temporalidade. Aliás, mesmo do ponto de vista conceptual, o que é que pode querer dizer uma condenação eterna? Às acusações de que deste modo se está a abrir caminho à irresponsabilidade e ao vale-tudo deve responder-se que o amor não banaliza, mas responsabiliza, devendo acrescentar-se que Deus só levará à plenitude as possibilidades concretizadas pelo ser humano no tempo.

Não constitui nenhum exercício de masoquismo lembrar que, desgraçadamente, para um número indeterminável de homens e mulheres, a religião, cujo núcleo é a salvação e a felicidade plena, em vez de ser o espaço da alegria, da expansão e da vida, foi, de facto, o espaço da tristeza, da humilhação e da morte.

Penso, por exemplo, em todos aqueles que foram e são vítimas de ódios e guerras cruéis e sanguinárias com base na religião. O horror, pura e simplesmente! Penso, claro, nas vítimas da Inquisição e em todos quantos, em todas as religiões, foram e são vítimas de censura, condenação e exclusão por motivos teológicos. Pergunto-me frequentemente como é que houve e há quem se arrogue o direito e até o dever de "definir" quem e o que é Deus e a partir daí condenar e excluir.
  • A história da missionação é uma história de generosidade sem nome, mas também se não pode esquecer ter tantas vezes servido interesses imperiais e assim contribuído para arrasar culturas.
  • Penso na história das relações entre as religiões e a sexualidade e nas vidas sexuais envenenadas e nos celibatos eclesiásticos obrigatórios e nos seus dramas e desgraças. Penso em certo tipo de confissão auricular que poderá ter ferido os direitos humanos.
  • Penso nas mulheres cujos direitos em igualdade com os homens as religiões de modo geral não reconhecem e sobretudo nas acusações de bruxaria que as levaram à fogueira.

O mais pernicioso foram e são ideias teológicas mesquinhas e ridículas. Também por isso, nomeadamente Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus, figuras determinantes para a Humanidade e de cuja profunda religiosidade ninguém pode duvidar, foram considerados ateus. Sócrates concretamente bebeu a cicuta, acusado de ateísmo, e Jesus morreu na cruz, acusado de blasfémia.

Estes factos obrigam a ter constantemente presentes, com temor e tremor, os perigos patológicos das religiões. Talvez nunca se tenha meditado suficientemente na grandeza heróica daqueles que preferiram o ateísmo a ficar presos de um deus que humilha, escraviza e anula o Homem.

No entanto, o Homem é por natureza religioso, no sentido de estar constitutivamente aberto à questão de Deus enquanto questão. Essa abertura, independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê, é que é o fundamento último da dignidade humana. Precisamente porque é abertura ao infinito.

A religião enquanto fé no Deus infinito e pessoal foi mediadora da tomada de consciência da infinita dignidade de ser Homem. Esta é a intuição e a parte de verdade da tese de Feuerbach ao querer reduzir a teologia a antropologia.

Esta reflexão tem na sua génese a carta de uma colega a confessar-me a experiência traumatizante do pavor do inferno na infância, que a levou ao abandono da prática religiosa. Não deixou, porém, a fé na mensagem de que Deus é Amor, continuando a acreditar nos valores cristãos e a tentar praticá-los.

Fonte: Pe. Anselmo Borges in DN

5 comentários:

  1. Ai se os do Opus Dei lêem este artigo! P.e Anselmo, P.e Anselmo, estás frito! Eles que acham que a salvação e a mudança estão na confissão auricular! Parecem "ratos de confessionário". Aí é que eles manobram...
    É importante o que o P.e Anselmo disse. Numa Igreja que não se questiona, que joga tudo no "eclesialmente correcto", é belo haver que questione, quem ilumine, quem não tenha medo.
    Parabéns!

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  2. «...Também por isso, nomeadamente Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus,..»

    Gostei do texto, há uma coisa porém que convém esclarecer.
    Enquanto que relativamente a Buda, Confúcio e Sócrates todos sabemos que existiram pois vários autores falaram sobre eles, de Jesus não existe uma única prova que tenha passado os testes grafo-técnicos dos textos falsificados pela Igreja Católica, o que portanto é um tanto abusivo nomeá-lo conjuntamente com os primeiros três.

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  3. Cristão atento19 dezembro, 2007

    O frei Anselmo Borges - tal como o frei Bento Domingues, o frei Boff, o "frei" Beto e tantos outros revoltosos! -, são cristãos rebeldes e hereges contumazes!
    Se não se arrependem contritamente, se não vão espiritualmente ao Inferno em vida (como foram tantos Santos), lá cairão eternamente depois de mortos!

    A maioria dos que se condenam, ao suplício eterno do Inferno, é precisamente daqueles que deixaram de acreditar na sua real existência, dizem os Santos e ensina a Igreja!
    E Jesus pregou muito mais sobre o Inferno do que sobre o Céu, com toda a clareza e desassombro!
    E Nossa Senhora de Fátima disse e avisou que vão muitas almas para o Inferno por não terem quem reze e se sacrifique por elas!
    E não hesitou sequer em mostrar o Inferno aos Pastorinhos, criancinhas inocentes!
    Assim como pediu-lhes - e por eles a todos os bons cristãos -, para rezarem muito e fazerem bastantes sacrifícios!

    Quem se julgam ser tais maus filósofos e péssimos teólogos dissidentes - heréticos e anticristãos! -, para fazerem tais insinuações sacrílegas e defenderem tais ideologias contrárias ao Magistério da Igreja e aos Dogmas católicos?!

    Porquê os seus Bispos, nomeadamente nos casos flagrantes e escandalosos dos padres Anselmo Borges e Bento Domingues - para já não falar noutros menos nocivos como o padre Joaquim Carreira das Neves, etc.; quanto a casos mais extremos, como ex-padre Mário da Lixa, já ninguém leva-os a sério, para além de terem sido excomungados há imenso tempo! -, não os excomungam oficialmente também, retirando-lhes os múnus sacerdotais e de professores de teologia?!

    Dois pesos e duas medidas?!
    Por essas e por outras é que a Igreja Católica está já tão destroçada, mas jamais sucumbirá, pois Jesus Cristo prometeu-lhe garantia e assistência directa até ao fim do mundo, embora esse fim já não esteja longe, a avaliar pelos "sinais dos tempos"!

    Rezemos, pois, pela conversão e salvação de todos aqueles que, hereticamente, já não acreditam na real existência do Inferno eterno, de Satanás e de todos os espíritos malignos, bem assim como na severa e imensa Justiça de Deus, para além da Sua infinita Misericórdia, perfeitamente sábias, santas e compatíveis!

    "Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!"

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  4. O padre Anselmo Borges pode pensar o que lhe apetecer, é proprio do homem tentar criar ídolos, é a nossa natureza pecadora.
    Não devia é dizer o que diz e afirmar-se católico. Aliás algumas coisas que diz mesmo como cristão só com muito boa vontade podem ser consideradas aceitaveis.
    Pena é que os jornais quase só dêem voz às vozes desafinadas do coro cristão. E também não é muito sensato estar sistematicamente a servir de amplificador dessas vozes.

    Cam

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  5. Que Igreja!
    Que cristãos!
    Que justiça!
    Que Caridade!
    Que profetismo!
    Que fanatismo!
    Que atitudes!

    É esta a igreja de Jesus Cristo!
    Incarna mais uma vez Memino Deus!
    Faz-Te homem... ainda bem que já o sangue foi derramado senão o derramariamos de novo...

    Creio na igreja una de divesidade
    santa de pecadores
    católica de universos
    apostólica de pastores e leigos.
    Creio na Igreja de Jesus Cristo. Nesta, na dos fariseus... ?????

    Temo mais estes "crentes", que parecem não saber o que é o Amor de Deus, que os descrentes que amam.

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