terça-feira, dezembro 04, 2007

CONSTRUCTOR DE PONTES

De todos os títulos que se concedem no mundo, o que mais me agrada é o de Pontífice, que quer dizer, literalmente, construtor de pontes. Um título de que não sei porquê, se assenhorearam os Bispos e o Papa, mas que na Antiguidade cristã se referia a todos os sacerdotes e que, como é lógico, ficaria muito bem a todos os que vivem de coração aberto.
É um título que me entusiasma porque não há tarefa mais bonita do que dedicar-se a estender pontes em direcção aos homens e às coisas. Sobretudo no momento em que tanto abundam os construtores de barreiras.
Num mundo de abismos que pode haver de melhor que entregar-se à tarefa de superá-los? Mas, fazer pontes - e sobretudo fazer de ponte - é uma tarefa muito dura. E que não se realiza sem muito sacrifício.
Uma ponte em definição rápida, é alguém que é fiel a duas margens, mas que não pertence a nenhuma delas. Assim, quando se pede a um padre que seja ponte entre Deus e os homens, quase se está a obrigá-lo a ser um pouco menos homem, a renunciar provisoriamente à sua condição humana, para tentar esse duro ofício de mediador, transportador, de margem a margem. Mas, se a ponte não pertence por inteiro a nenhuma das duas margens, tem, no entanto, de estar firmemente assente nas duas. Não "é" margem , mas apoia-se nela, é súbdita de ambas.
  • Ser ponte é renunciar a toda a liberdade pessoal. Só se serve quando se renunciou. E, logicamente, sai caro ser ponte. Este é um oficio pelo que se paga mais do que se cobra. Uma ponte é fundamentalmente alguém que suporta o peso de todos os que passam por ela. A resistência, a força, a solidez são as suas virtudes. Numa ponte contam pouco a beleza e a simpatia - embora seja belo ver uma ponte bonita-; o que conta realmente é a capacidade de serviço, a sua utilidade.
  • E uma ponte vive da ausência de uma margem para outra pelos que, ao chegarem à margem, aí se fixam de agradecimento: ninguém fica a viver em cima das pontes. São usadas para atravessar. Quem espera carinhos, bem pode procurar outra profissão. O mediador termina a sua tarefa quando serviu de elo de ligação. A sua tarefa posterior é o esquecimento. Inclusive, quando, nas guerras, duas margens entram em conflito, a ponte que as liga é a primeira coisa a ser bombardeada; por isso o mundo está cheio de pontes destruídas.
  • Apesar disso, meus amigos, que grande ofício ser ponte entre as pessoas, entre as coisas, entre as ideias, entre as gerações. O mundo deixaria de ser habitável no dia em que o número de construtores de abismos fosse maior do que o de construtores de pontes.
  • É necessário estender pontes, em primeiro lugar em direcção a nós mesmos, à nossa própria alma, já que a pobre está tantas vezes isolada dentro de nós mesmos.
  • Uma ponte de respeito e aceitação de nós próprios, uma ponte que impeça esse estarmos internamente divididos, que nos converte em neuróticos.
  • Uma ponte em direcção aos outros.

Nunca esquecerei a maior lição de oratória que me deram quando era ainda estudante. Deu-ma um professor que me disse: "nunca fales às pessoas, fala com as pessoas." Então apercebi-me de que todo o orador que não estende pontes de ida e volta em direcção ao seu público, nunca conseguirá ser ouvido com atenção. Se, pelo contrário, estabelece um diálogo entre a sua voz e esse fluído eléctrico que sai dos ouvintes e se transmite dos seus olhos até ao orador, então conseguirá esse milagre da comunicação que tão poucas vezes se alcança.

Então entendi também que não se pode amar sem se converter em ponte; sem sair um pouco de si mesmo. Gosto da definição de amor dada por Leo Buscaglia: "os que amam são os que esquecem as suas próprias necessidades" . É certo: não se ama sem "pôr um pé" na outra margem que é o outro, sem " perder um pouco o pé " da sua própria ribeira.

E o ditoso ofício de ser ponte entre pessoas de diversas ideias, de diversos critérios, de distintas idades e credos. Feliz a casa que consegue ter um dos seus membros com essa vocação pontifical!

Finalmente, a grande ponte entre a vida e a morte. Thorton Wilder diz, numa das suas comédias, que neste mundo há duas grandes cidades, a da vida e a da morte, e que ambas estão unidas - e separadas - pela ponte do amor. A maioria das pessoas, ainda que pensem estar vivas, vivem na cidade da morte; têm a poucos metros de si a cidade da vida mas não se dedicam a cruzar a ponte que as separa. Quando se ama, começa-se a viver sem mais, na cidade da vida.

SER PADRE é SER PONTE

2 comentários:

  1. Bem!
    É isso mesmo.
    Obrigado pelas "dicas".
    Paulo Lopes, Setúbal

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  2. não sei para que é que querem a internet:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Pontifex_maximus

    também eram eles que afixavam em roma o calendário dos dias fastos e nefastos.
    não tinham era o poder da infalibilidade como os de hoje.

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