terça-feira, janeiro 19, 2010

Crer no invisível

O arcebispo de Bruxelas, natural de Flandres, não partilha nem da intransigência nem da visão pessimista da cultura ocidental que Bento XVI semeia.
“Na Europa, temos passado de um catolicismo sociológico, natural, a outro, voluntário, de livre eleição”.
“Depois, está a dificuldade de crer no invisível. Aqui só se crê naquilo que se pode ver. Não é o caso da África, onde há um sentido religioso natural. Ali há muitos deuses, e é necessário só um. Aqui não há deuses, e também precisamos de um. É uma realidade, e temos que aceitá-la”.
Nem rastro das metáforas apocalípticas que Bento XVI usa, como aquela que se serve de uns javalis arrasando a vinha do Senhor para descrever a civilização atual.

Danneels é um homem que se afasta de boatos, que descreve com franqueza a perspectiva que ele observa desde a atalaia da capital política da Europa. Da mesma forma que se refere ao retrocesso do catolicismo no continente, não oculta as dificuldades para construir pontes com a outra grande religião monoteísta. “O Islão não está muito aberto ao diálogo inter-religioso. Na Europa, a maioria dos muçulmanos vêm do norte da África, têm um nível cultural baixo e sentem-se inferiores, o que os empurra para a rejeição. O Islão há de fazer a sua revolução francesa, tem que separar o Estado da religião. Enquanto isso não acontece, os problemas persistirão. Os religiosos de uma e de outra confissão podem falar entre si, mas somente enquanto a política não interferir”.

1 comentário:

  1. A civilização ocidental e a modernidade não são inimigas do cristianismo, como interpretam o pessimismo de certos clérigos, para quem "estamos no mundo, mas não somos do mundo." Negam com isto a vida e o progresso. Sentem-se inseguros ante os desafios da existência e do tempo presente. Por tal razão, refugiam-se no passado obscuro e medieval, onde todas as perguntas tinham "respostas"(!) Recusam-se a fazer uma auto-crítica humana e construtiva, pois a boa-nova que viria com isto é por demais desconcertante para quem se acha dono da verdade. Contudo, os caminhos da Igreja serão sempre desinstaladores, onde fé e dúvida sempre coexistirão, uma vez que somos pessoas humanas e não seres angelicais. Assim, ao invés de teimarmos em projetarmos um deus antropomórfico, deixemo-nos, a exemplo do profeta, ser continuamente criados e recriados pela mãos do Oleiro, cuja aceitação da mudança criativa e permanente se refletirá na Igreja e na sociedade de modos muitos mais benéficos do que o são agora.

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