sexta-feira, março 13, 2009

Lefebvrianos: Papa «arrasa» críticos

Bento XVI admite erros, mas nega qualquer vontade de abrir conflito com os judeus ou dentro da Igreja

Bento XVI lançou um duro ataque aos que criticaram a sua decisão de revogar a excomunhão de quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa Sé, lamentando em especial que o seu gesto tenha sido obscurecido pela polémica em torno posições negacionistas de D. Richard Williamson sobre o Holocausto.

Falando em feridas antigas, falta de paz e mesmo hostilidade para com o Papa, Bento XVI cita São Paulo para repetir um alerta do Apóstolo: "Se vos mordeis e devorais mutuamente, tomai cuidado em não vos destruirdes uns aos outros".

"Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos - que no fundo, poderiam saber melhor como tudo se desenrola - se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste”, escreve.

O Papa tem palavras muito fortes para aqueles que se opõem a qualquer diálogo com a Fraternidade São Pio X: “Devemos remeter à indiferença uma comunidade que conta com 491 padres, 215 seminaristas, 117 frades, 164 freiras, e milhares de fiéis?"

"Devemos mesmo deixá-los afastarem-se da Igreja? Poderemos simplesmente excluí-los, enquanto representantes de um grupo marginal e radical, da busca pela unidade e reconciliação?”, prossegue.

Por outro lado, Bento XVI reafirma que não tinha conhecimento das posições do Bispo Williamson, mas admite que no futuro a Santa Sé deverá estar mais atenta à Internet, como “fonte de notícias”.

Uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão”, escreve, lamentando que o seu “gesto discreto de misericórdia” se tenha transformado, na opinião pública, numa espécie de “desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja”.

“Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir”, acrescenta.

Logo no início da carta, aliás, o Papa admite que a sua decisão sobre os Bispos lefebvrianos “suscitou por variadas razões, dentro e fora da Igreja Católica, uma discussão de tal veemência como desde há muito tempo não se tinha experiência".

"Desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais além do momento", refere também.

O texto frisa que “alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para antes do Concílio”, algo que Bento XVI desmente por completo.

A carta, dirigida aos Bispos católicos, pretende ser uma "palavra esclarecedora" e contribuir para "a paz na Igreja".

O Papa diz que entre as suas prioridades estão "o esforço em prol do testemunho comum de fé dos cristãos – em prol do ecumenismo" e "a necessidade de que todos aqueles que crêem em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos – embora na diversidade das suas imagens de Deus – para a fonte da Luz: é isto o diálogo inter-religioso".

Erros e críticas

Além do “caso Williamson”, a carta papal admite outro erro, ao não se ter definido claramente o objectivo e o alcance da decisão sobre as excomunhões tomada no passado dia 21 de Janeiro.

“A excomunhão atinge pessoas, não instituições. Uma ordenação episcopal sem o mandato pontifício significa o perigo de um cisma, porque põe em questão a unidade do colégio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a punição mais severa, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso à unidade”, explica Bento XVI.

Para o Papa, essa unidade ainda não foi alcançada, pelo que a “remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade que pretende a punição: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso”.

A carta refere que “é preciso distinguir este nível disciplinar do âmbito doutrinal”.

“O facto de a Fraternidade São Pio X não possuir uma posição canónica na Igreja não se baseia, ao fim e ao cabo, em razões disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade não tiver uma posição canónica na Igreja, também os seus ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja”, observa Bento XVI.

O Papa afirma claramente que os tradicionalistas não podem “congelar” a autoridade do magistério da Igreja em 1962, ano do início do II Concílio do Vaticano, mas diz também que “a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja”.

Bento XVI não nega que “desde há muito tempo e novamente nesta ocasião concreta, ouvimos da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presunção, fixação em pontos unilaterais, etc”.

“Em abono da verdade, devo acrescentar que também recebi uma série de comoventes testemunhos de gratidão, nos quais se vislumbrava uma abertura dos corações. Mas não deveria a grande Igreja permitir-se também ser generosa, ciente da concepção ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita?", questiona.

"Não deveremos nós, como bons educadores, ser capazes também de não reparar em diversas coisas não boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E não deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, também surgiu qualquer dissonância?”, continua.

Para Bento XVI, "o facto de que o gesto submisso duma mão estendida tenha dado origem a um grande rumor, transformando-se precisamente assim no contrário duma reconciliação é um dado que devemos registar".

Ó Papa revelou também a intenção de unir, futuramente, a Comissão Pontifícia «Ecclesia Dei» – instituição competente desde 1988 para as comunidades e pessoas que, saídas da Fraternidade São Pio X ou de idênticas agregações, queiram voltar à plena comunhão com o Papa – à Congregação para a Doutrina da Fé.

"Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, são de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas", explica.

No final do documento, Bento XVI deixa ainda outro lamento: “Às vezes fica-se com a impressão de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual não conceda qualquer tolerância, contra o qual seja possível tranquilamente arremeter-se com aversão. E se alguém ousa aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso – perde também o direito à tolerância e pode de igual modo ser tratado com aversão, sem temor nem decência”.

Fonte: Agencia Ecclesia
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2 comentários:

  1. Gostei do Papa ter se manifestado sobre tudo isso...

    Vou colocar um link do seu blog no meu... visite meu blog e veja se gosta...ok?

    Se gostar coloque um link dele aqui no seu blog ok?

    Sua opinião sobre meu blog é bem vinda, pois ainda sou novato no mundo blogueiro..

    Paz!

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  2. “Devemos remeter à indiferença uma comunidade que conta com 491 padres, 215 seminaristas, 117 frades, 164 freiras, e milhares de fiéis?"

    É estranho como se "remeteu à indiferença" toda uma corrente - a das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação, etc -, com muito mais Padres, Seminaristas, Frades e Freiras, com milhões de Fiéis... com muito mais Bispos...

    E mesmo para falar em sectores mais "moderados" da Igreja Católica, não há ninguém que avise Bento XVI que, a teimar por este e outros "caminhos" afins, as perdas serão muito maiores que os ganhos?
    Não há ninguèm que o avise que já há muitos Padres, Seminaristas, Frades e Freiras, milhões de Fiéis ..., a "suspirar" por um novo Papa?

    Viva o II Concílio do vativano!

    Viva João XXIII! Viva Paulo VI!

    Moçambicano

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