sábado, setembro 17, 2005

PADRE E COMPANHEIRO

A discussão em torno da missão do padre tem proporcionado bastantes aquisições, mas não deixa de ser imune a algumas indefinições. De resto, já dizia Edgar Morin que não há progresso definitivamente adquirido. Por cada progressão há sempre um sem-número de regressões.
Num quadro como este, o discernimento impõe-se como imperativo inadiável e tarefa prioritária. É que, no meio de tanta turbulência e agitação, há uma constante que não pode mudar. O padre, antes de ser um prestador de serviços cultuais, é alguém chamado a reproduzir, em si e nos outros, a vida de Jesus Cristo.
Não se trata, portanto, de algo que incida apenas sobre o plano operativo (das acções) ou ético (dos comportamentos), envolvendo igualmente o plano ontológico (do ser). Ao contrário do que, por vezes, se ouve - «no altar é padre, cá fora é um homem como outro qualquer» -, não é lícito dissociar o ser homem e o ser padre: o presbítero é sempre homem, mesmo quando está no altar, e sempre padre, mesmo quando se encontra na rua.
Acontece que a História não pára e, hoje em dia, exigências de diversa ordem como que esboçam uma nova imagem do padre.
Há, inquestionavelmente, uma maior preocupação com a formação. O Curso de Teologia é mais longo, as publicações saem a um ritmo mais acelerado, e os simpósios suscitam uma mobilização crescente. As propostas pastorais são inovadoras... procuram trabalhar em equipa...
Há, no entanto, um problema: a sua presença o meio da comunidade. O decréscimo de vocações obriga a que os padres tenham a seu cargo várias paróquias, vendo-se compelidos a contínuas viagens para atender a todas as solicitações.
As pessoas vão-se habituando a vêr o sacerdote em momentos determinados: nas celebrações ou noutras iniciativas que se promovem periodicamente. Subsiste, por conseguinte, o contacto com o padre pastor. Mas vai escasseando a proximidade com o padre companheiro. E não há dúvida de que o sacerdócio ministerial passa, em grande medida, por aqui.
É importante que as crianças sintam que há alguém perto delas, a quem podem recorrer para uma ajuda nos «trabalhos d casa»; que os idosos saibam que há alguém disponível para os levar ao hospital ou até para lhes prestar os primeiros cuidados; que os jovens dêem conta de que há alguém que acolhe os seus desabafos com solicitude e longe da curiosidade mórbida própria da intriga.
Mais do que ir à paróquia, é fundamental que o padre possa sentir a paróquia, sofrer com ela e por ela, rezar nela e para ela. Não é fácil, nesta época, assegurar uma presença deste género. A carência de sacerdotes não permite a presença do padre companheiro.
Como fazer? Que soluções?

8 comentários:

  1. Batina. A paróquia ver o padre como padre, sempre, mesmo quando toma café. Nisto sou muito conservador. (apetecia-me dizer, sem ironia, bué de conservador)

    Há milhares de outras coisas decerto. Mas esta ocorreu-me, sim.

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  2. Queria te dizer que eu nunca usei batina ou qualquer coisa do género. Certamene não percebeste o que quis dizer. O que eu quis dizer é que onde quer que eu me encontre casa, café, igreja, romaria... eu não escondo a ninguém que sou padre. E que para estar com as pessoas não é necessário renunciar aos principios e aos valores em que eu acredito. Eu conservador? Se o fosse não estava a dialogar convosco sobre os mais diversos assuntos que inquietam o mundo, a sociedade e a Igreja!

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  3. Caros ambos e futuros outros.

    Não se deveria dizer o mesmo de todo e qualquer cristão?

    Abraços.

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  4. Bem, acho extraordinário supor que os conservadores não dialogam... mas devo pensar assim porque na minha adolescência eram os revolucionários que o não faziam :)

    Padre, acho que entendi, e na dúvida fui reler. Não disse que tinha a fórmula mágica. Disse que a dimensão simbólica é importante. É mesmo - no sentido original da palavra - CRUCIAL. O báculo (? - também se chama assim ao cajado do pastor universal?) curvado do Papa Polaco fez mais pelo mundo do que o teria feito um par de jeans usado por ele. Sempre foi assim - e mais agora, quando vivemos na sociedade do espectáculo. Vou dizer mais. O Papa Ratzinger tem um livrinho sobre o "sentido da liturgia", que foi aliás já traduzido. Sugiro (a todos) a leitura do capítulo sobre a "orientação" da arquitectura das Igrejas e, nele, a parte sobre "a direcção do olhar" durante a Eucaristia.

    Entristece-me quando ouço "por acaso o meu pároco até era bestial, quando lá vivia gostava de ir à missa dele, era diferente". E ouço-o cada vez mais. Claro que nada acontece se apenas se caiarem sepulcros... Mas que o Símbolo se faça visível enquanto tal. De resto, inteiramente de acordo com o conteúdo do post!

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  5. Caro Goldmundo.

    Se a diferença do pároco bestial é apenas “estética” – no sentido de ele usar calças de jeans ou assumir posições “modernas” sem fundamentá-las na sua vida em Cristo – que tristeza, realmente; mas se é bestial por encarnar e agir o Símbolo, que alegria.

    Bem, isto mais para dizer que sempre que se divide mundanamente o cristianismo em conservadores e modernos, penso que se está a reduzi-lo a algo que nele próprio é superado – não quero dizer com isto que tu fazes essa divisão, tão só o “tema” surgiu e apeteceu-me (re)lembrar isto. Deve ser porque estou em mudanças de casa, actividade, como se sabe, com forte indiciação com a memória, avaliações do presente e projecções para o futuro…

    Abraços.

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  6. Caro Vítor: como acho que já contei uma vez, fiquei com a frase de um meu professor de moral gravada na cabeça: "sou padre, mas isso nao quer dizer nada" (ele queria dizer "não é razão para não sermos camaradas", ou qualquer coisa assim... estávamos em 76, se bem faço as contas) :)

    Bam, uma mudança para mim é sempre traumática... precisas de ajuda? Abraço :)

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  7. Caro Goldmundo.

    Obrigado pela ajuda, mas a parte “física” já está.

    Quanto aos traumatismos das mudanças, há até um lado que me agrada. Coloca um pouco as coisas nos seus lugares de efemeridade. E depois, até gosto de mudar de ares. Enfim, também com a quantidade de vezes que já mudei de casa, estava “feito ao bife” se não entrevisse algum prazer e terapia de vida no assunto…

    Aproveito a deixa para um abuso informativo de que estou disponível para cafés concretos (isto é, não “virtuais”.)

    Um abraço.

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