sexta-feira, setembro 16, 2005

O ABORTO E OS FILHOS

Muitos defensores do aborto entendem que a posição simples, boa, justa e natural é o aborto livre, seguro e legal. Muitos textos destas páginas provam que isso não é assim: o aborto nem é seguro nem é justo, e pelo meio deixa um país juncado de mulheres destruídas, casamentos desfeitos, ódios perpétuos, ralação paciente/médico envenenada, etc.
Os defensores do aborto insistem muito em que nada disso interessa: tudo deve ser uma escolha pessoal que não diz respeito a mais ninguém. Mas estão enganados:
  • primeiro diz respeito ao filho que morre;
  • depois, diz respeito à mulher que aborta a maior parte das vezes sem saber no que se está a meter;
  • finalmente, diz respeito aos filhos que ficam!

Ao contrário do que pensam os seus defensores, as teorias pró-aborto não são uma imanência etérea que fica lá guardada dentro da sua cabeça. As teorias pró-aborto saltam cá para fora, matam, e entram-lhes pela casa dentro quando menos esperarem.
As perturbações psicológicas que sofrem os filhos dos defensores do aborto estão bastante estudadas é semelhante ao complexo de culpa de que sofrem alguns sobreviventes dos campos de concentração: "porque sobrevivi eu?".(Cf. livros de Anna Speakhard, Vincent La Rue, Françoise Dolto).
Mas para ter uma ideia mais concreta talvez lhe dê jeito pensar no seu filho de oito anos que um belo dia lhe perguntará:

  • "Mãe: tu pensaste em abortar-me?""
  • Pai, quando tu dizes que eu faço asneiras de mais, pensas que era melhor ter-me abortado?"
  • "Mãe, quantos irmãos deixei eu de ter por causa do aborto?"
  • "Pai, tu eras capaz de dar a vida por mim, ou eras capaz de dar a minha vida por ti?"
  • "Mãe, se eu fosse menos perfeitinho tinhas-me abortado?"
  • "Pai, eu valho alguma coisa agora? Porque não valia nada antes de nascer?"
  • "Mãe, tu gostarias de mim ainda que eu viesse na altura errada?"
  • "Pai, quando as pessoas complicam a vida de outras podemos matá-las? Se tu ficares velho senil e mijão, eu posso matar-te?"
  • "Mãe, se até as mães matam os filhos, quem protege os meninos?"
  • "Pai, tu gostas mesmo de mim ou eu tenho de me tornar naquilo de que tu gostas?"
  • "Mãe: quantos abortos fizeste?"
  • "Mãe, tu não achas que se não tivesses abortado depois ias gostar do bebé tanto como gostas de mim?"

Claro que poderá dizer ao seu filho: isso são perguntas cuja resposta só podes perceber quando fores grande, que é a resposta típica dos pais surpreendidos em falta! Entretanto o seu filho crescia e como resposta ouvia: Às vezes a prova suprema de amor é aceitar matar o filho para o poupar a muita miséria e sofrimento.
Naturalmente o seu filho adulto irá responder: Às vezes a prova suprema de amor é aceitar matar os pais para os poupar a uma vida inútil, vazia, acaso de sofrimento físico e psicológico. Quem sabe se para vocês não estará reservada, tudo por amor, claro!, a eutanásia!? É que esta já não significa "good death": significa "GOOD BYE"!

3 comentários:

  1. Parece que se insiste só na estratégia de "choque" para combater o aborto. Não acredito na eficácia deste tipo de textos a longo prazo, pois são manipuladores das emoções. Poder-se-iam escrever (e escrevem-se) textos análogo de sinal contrário. Se os cristãos não têm nada de melhor para dizer sobre o aborto não deverão espantar-se caso este seja aprovado no próximo referendo.

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  2. Claro que este caminho não tem fim. "Não me dás o carrinho vermelho? Antes a avó te tivesse abortado". Etc.

    Esta questão deixa-me profundamente desconfortável, e não consigo deixar de pensar que a Igreja foi apanhada na maior armadilha que lhe foi montada desde a entrega aos Papas do antigo poder dos Imperadores.

    Não penso que a questão da "dignidade" do feto de poucas semanas seja dissociável da crença na existência de uma alma imortal. O aborto é terrível, sim. A sua criminalização (e a visibilidade dela quando efectivamente não há prisão para as mulheres que o façam) apenas se justifica - como em qualquer matéria penal - havendo consenso social, que não é medido pelo grupo que obtém 51% de votos seja no que for. E na dúvida sobre esse consenso, é crime criminalizar. O mesmo para a homosexualidade e o adultério.

    Percebo que seja um pecado abominável. Mas não encontro argumentos para persuadir disso uma só pessoa enquanto não obtiver, primeiro, a sua conversão. Acho o aborto um pecado sim, mas não sei condenar uma abortadora. E não consigo ficar com a consciência tranquila porque consegui que a polícia, por dever profissional, atire a primeira pedra. É que a pedra que ela usa é pesada e aguçada demais.

    Acho terrível - no maior sentido da palavra, no sentido diabólico da palavra - que o Ocidente esteja radicalmente dividido por questões que se reconduzem à sexualidade. Acho terrível que apoiemos qualquer energúmeno que se apresente como um "político de direita" porque "pelo menos" não fará o referendo, ou não fará a lei. Claro que ele não a fará. Está na política por outros motivos.

    Diz-se - sei que é uma lenda maldosa, inventada nos tempos da Revolução Francesa - que os primeiros dominicanos inquisidores teriam dito, a propósito da heresia albigense-cátara na Idade Média "matai-os a todos, Deus escolherá os seus". Preferia que por uma vez pudéssemos dizer "poupai-as a todas. Deus julgará".

    Preferia que a iniciativa da despenalização partisse directamente dos católicos, mantendo eles em público, com a maior clareza, todos os argumentos teológicos para justificar que o acto seja um pecado grave. "isto", deveriamos dizer, "é um pecado grande. Por esta e esta razões. Mas não queremos juntar um pecado a outro pecado. Não queremos que César volte a ser o cão de fila de Deus. Sempre que isso aconteceu, os homens de deus acabaram cãezinhos de luxo ao colo de césares de papelão".

    Tudo isto me deixa profundamente afastado. Dêmos aos homens razões para viver e dar a vida que não sejam o medo. Não finjamos que o mundo se não está a desmoronar. Não finjamos que a situação dos homens enquanto homens não está a ficar insustentável. Que a morte não tem já o ceptro dos mundos. Não continuemos a falar como se estivéssemos num romance do Júlio Dinis. Já não há desfolhadas que reúnam uma comunidade contente de o ser. Já não há aldeias brancas acolhidas ao sino pacato da igreja. Não é a luxuria, mas o desespero que comanda o mundo. E todos somos responsáveis por isso. Que fizemos aos talentos que nos foram confiados? "Senhor, não encontrámos nada melhor que apoiar os partidos centristas, os políticos do desenvolvimento económico, os burgueses-zelotas. Mas sabes, Senhor, tentámos apedrejar os abortistas, os homosexuais, os que não permanecem virgens, os que usam coisas que Adão e Eva não usaram. Tentámos apedrejar as ovelhas perdidas".

    Não. Não vou por aí. Mas que cada um siga o caminho que a consciência lhe ditar. E felizes os que obedecem sem pensar a todos os homens de deus, e a todos os homens de césar. Porque nunca passarão uma noite acordados.

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