sexta-feira, fevereiro 05, 2010

VISEU: “O Sacerdote na Sociedade e na Igreja deste tempo”.

1. A sociedade actual é marcada por mudanças rápidas e profundas que geram forte impacto nas pessoas em geral e também na Igreja que parece debilitada numa sociedade poderosa. Também os sacerdotes não são imunes a esta realidade. Contudo, ao sacerdote cabe a missão de saber escutar e de pôr em prática a atitude evangélica do discernimento da cultura actual para lhe poder levar a luz do Evangelho.

2. Vivemos numa cultura impregnada de um narcisismo exacerbado. Vivendo inserido nela, é importante que o sacerdote cultive uma auto-estima sã, na alegria do serviço aos outros que gera nele equilíbrio.

3. Vivemos numa cultura que privilegia a individualidade. Esta aparece como a grande conquista da actualidade, mas em detrimento da solidariedade, saindo enfraquecidos os vínculos familiares e o sentido de compromisso. Nela, a fidelidade parece não ter lugar. O sacerdote também não é imune ao individualismo, mas é chamado a valorizar o sentido da entrega, da disponibilidade, da partilha de projectos comuns, certo de que a sua missão tem de ser uma co-missão.

4. Vivemos numa cultura que promove a libertação sexual, gerando dissociações, rupturas e, mais ainda, escravidões. Nela, o sacerdote é chamado a viver o celibato com generosidade, ainda que não sem dificuldades, o que só é possível se vive o ministério com paixão e profundamente unido a Cristo.

5. Vivemos numa cultura que debilita o sentido de pertença. Esta é uma dimensão fundamental da pessoa que se alimenta da convivência, da concelebração, da colaboração e da partilha. Importa que o sacerdote cultive um saudável e forte sentido de pertença não só às paróquias que lhe são confiadas, mas também à Diocese e a Igreja, sem esquecer a própria sociedade. Aquelas são pertenças ‘sacramentais’ que não devem ser enfraquecidas pela pertença saudável a grupos ou movimentos.

6. Vivemos numa cultura que acentua a satisfação de desejos. Produzir e consumir tornaram-se os eixos da sociedade. Nela, o sacerdote é chamado a pautar a sua vida por critérios evangélicos, testemunhando a sua identificação com Cristo, sem se deixar vencer pela tirania do dinheiro, de modo que a sua vida seja uma denúncia do materialismo e um sinal de solidariedade com os mais pobres.

7. Vivemos numa cultura com “Deus à margem”, indiferente, em que muitos vivem como se Deus não existisse, embora sejam muitos também aqueles a quem a fé dá sentido à vida, orienta o seu agir, infunde esperança, força e consolo na provações. O Sacerdote deve ser testemunha da esperança assente nos desígnios salvíficos de Deus, vivendo uma entrega confiada sem se deixar vencer pelo desalento.

8. Tomamos conhecimento que, dos sacerdotes, os leigos esperam que gastem tempo com as pessoas e lhes dêem aquilo que só o sacerdote lhes podem dar: a Palavra e os sacramentos, especialmente a Reconciliação e a Eucaristia, sem pressas, nem correrias. Que falem a mesma linguagem, assente na doutrina da Igreja, com coragem, sem medos nem respeitos humanos. Que os ajudem a ser santos. E dos leigos podem contar com a sua oração e cooperação na vida da Igreja, certos de que precisam dos sacerdotes.

9. Na perspectiva dos leigos, o sacerdote é chamado a ser homem de Deus e não mero funcionário do divino. Deve falar uma linguagem perceptível, adequada aos problemas de hoje. Deve viver entregue ao essencial e ser um coordenador e não um faz-tudo. Deve ir ao encontro das pessoas com um olhar complacente para lhes levar esperança e não ficar à espera de porta aberta.

10. Tomamos consciência daqueles que devem ser os grandes traços duma autêntica espiritualidade presbiteral:

11. Uma espiritualidade da confiança que brota do reconhecimento do amor irrevogável de Deus e da sua vontade salvífica revelada em Cristo, e não do optimismo.

12. Uma espiritualidade do fazer sossegado com a consciência de que é o Espírito Santo que conduz a história, e não do hiperactivismo nervoso ou da hiper-responsabilidade que gera ansiedade.

13. Uma espiritualidade da fidelidade enquanto expressão de um amor que resiste ao desgaste do tempo, e não da procura do êxito.

14. Uma espiritualidade responsável marcada por um moderado sentimento de culpa que nos mobilize e não pelo culpabilismo que paralisa e rouba as forças.

15. Uma espiritualidade marcada por uma paciência activa que respeita o tempo de Deus e os ritmos humanos, e não da pressa.

16. Uma espiritualidade da sintonia de quem se sente amigo e parte da humanidade, vivendo de forma saudável a presença no mundo, e não da distância.

17. Uma espiritualidade da alegria que mova o sacerdote a despertar nas pessoas o melhor, e não da tristeza, que não pode ser a atitude habitual do sacerdote.

18. Uma espiritualidade que privilegie a experiência da fé, própria de quem sente paixão por Deus e a força do Espírito Santo que universaliza, actualiza e interioriza.

19. Uma espiritualidade que aprende e ensina a rezar.

20. Podemos constatar, na perspectiva dos sacerdotes e dos leigos, que os sacerdotes viverem em comum ou assumirem a responsabilidade de várias paróquias em comum (párocos in solidum), pode ter vantagens, tais como: a valorização e rentabilização das qualidades de cada um, a partilha de tarefas, a programação conjunta, a reflexão partilhada das decisões a tomar, o apoio nas horas difíceis, sem esquecer as questões económicas. Mas, em certas condições, sobretudo quando estão envolvidas muitas paróquias, pode gerar pouca proximidade dos sacerdotes em relação às pessoas pela presença pouco habitual levando a uma certa desorientação das comunidades.

21. Aprofundámos o sentido da fraternidade sacerdotal, compreendendo que há razões válidas, mas não suficientes para a fraternidade sacerdotal, como sejam as de ordem de eficácia apostólica ou de acção mais concertada, ou então de promoção da saúde integral dos sacerdotes ou de testemunho perante a comunidade cristã, pela constatação de que os sacerdotes vivem unidos, em comunhão.

22. Percebemos que somos uma ‘comunidade’, somos co-presbíteros, pois há uma ligação de fundo entre todos os presbíteros, que por sua vez estão essencialmente vinculados ao Colégio Episcopal e são co-responsáveis da sua missão universal. Esta ligação é o motivo fundamental da fraternidade sacerdotal.

23. Por um título singular, somos sacramentalmente irmãos. Há uma fraternidade sacramental que, no sacerdote, torna mais densa a fraternidade baptismal. Esta realidade tem de gerar um comportamento fraternal entre os sacerdotes.

24. Temos uma mesma identidade específica como ramos da mesma árvore. Com os Bispos, somos um único Sacramento da Ordem que se actualiza em cada um e em todos os presbíteros. Esta consciência deve gerar em nós um forte sentido de universalidade, sendo o presbitério diocesano o lugar eminente da nossa fraternidade sacramental e a diocese, o espaço onde somos chamados a gerar a comunhão de toda a comunidade eclesial.

25. Constatámos que a fraternidade presbiteral não é isenta de dificuldades, motivadas pela dispersão geográfica, por diferentes mentalidades e interesses, pela ligação a grupos ou movimentos que enfraquece a ligação ao presbitério, por questões económicas, sem esquecer que pode haver também carências formativas, sendo o Seminário um espaço privilegiado para cultivar um correcto sentido de presbitério.

Gabinete de Imprensa da Diocese de Viseu

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