segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Porque não atrai a Igreja Católica?

Os nossos dias estão marcados por um afastamento grande das pessoas em relação à Igreja. Nada ou quase nada mobiliza as pessoas para os diversos serviços que a Igreja oferece. Um conserto de música com um cantor qualquer mobiliza milhares de pessoas, as iniciativas da Igreja estão reduzidas aos mesmos fiéis. Algo está mal. A Igreja perdeu a capacidade de atracção. E se não fosse a realidade trágica da morte, há muito que Igreja tinha passado à história.
Não deve ser este simplismo rasteiro que nos deve centrar na análise das coisas. É preciso procurar mais fundo. Até dúvido muito, que as grandes enchentes que Nossa Senhora de Fátima consegue se não são mais um claro sinal da decadência em que tudo isto está mergulhado.
A Igreja tal como está não pode evoluir nem pode adaptar-se à realidade sempre nova que os tempos nos apresentam. Antes de mais não pode evoluir uma Igreja centralista e que perante as provocações ou apelos à mudança se fecha em copas e agarra-se ao poder com todas as suas forças. Não pode evoluir uma Igreja que se agarra a títulos e mordomias principescas, mais grave do que tudo isso, teimosamente, chama a esses anacronismos absurdos de serviços.
Não parece, mas o governo da Igreja tem muita importância. Ora, vejamos, A Igreja Católica funciona quase exclusivamente sob um poder vincadamente centralista, a autoridade central (entendida como sendo de direito divino). A Igreja Católica é a sociedade mais centralista do mundo. O seu chefe tem uma autoridade e um poder incomparável com qualquer outro governo. Assim sendo, só mesmo a doença, a velhice, o poder de comunicação e a atracção misteriosa é que nalguns momentos podem seduzir algumas pessoas. Mas a Igreja não vive disso. Precisa de muito mais e de outra forma de ser, para que seja uma verdadeira comunidade ou comunidades de irmãos solidários. Embora se saiba cada vez mais que a mentalidade actual, comandada pelo egoísmo, a concorrência, a intriga, a violência (...), não facilita em nada este sonho evangélico.
A perda de influência da Igreja em relação a tudo o que diz respeito às mulheres e aos homens, não se deve a querelas de ordem dogmática ou doutrinária, mas, simplesmente, a questões relacionadas com o seu funcionamento, maneira de governar e de falar à humanidade dos tempos de hoje. Assim sendo, descobrimos uma Igreja profundamente vulnerável à desconfiança que em relação a ela se manifesta, mostra-se angustiada pela perda de influência e está sempre certa de ter razão face aos ataques e nada procura aprender com as envistidas do mundo.
Por isso, há uma enorme discrepância face àquilo que o mundo pensa face a Igreja e aquilo que a Igreja entende de si mesma. Esta dissonância perturba a lucidez da Igreja, por isso, não admiram os frequentes tiros no pé que algumas destacadas eminências da Igreja aplicam.
A Igreja tem elementos suficientes para recuperar a capacidade de atracção que teve durante muito tempo. A Igreja precisa de se libertar de tudo o que é mundano e deixar de tomar a sua pastoral como se fosse um departamento dos governos. A Igreja precisa de ser o "Corpo de Cristo" e agir de forma livre e totalmente desinteressada das coisas deste mundo. A Igreja precisa de ser Mistério e anunciadora do Mistério da Salvação para todos os homens.
Para dar início a este anúncio seria importante começar pela linguagem e fazer ver em linguagem actual que o tesouro do Evangelho que a Igreja transporta, é o melhor caminho para felicidade.
Fonte: Banquete da Palavra

1 comentário:

  1. Excelente texto! Poucos na Igreja de hoje teriam a coragem profética necessária para dizê-lo, e poucos ainda a de divulgar essa mensagem. Tocou direto em nossas feridas, que tentamos ocultar: ao invés de querermos atrair mais pessoas, devemos atender o mandato missionário do Cristo e ir ao encontro de tanta gente que necessita da palavra amorosa e repleta de sentido e desafio que Jesus nos propõe carinhosamente para o nosso bem e de toda a humanidade. E só teremos êxito quando voltarmos a ser uma comunidade fraternal, ao invés de ficarmos atrelados à rígida organização centralizadora que nos tornamos -- uma réplica do império romano a cujas conveniências políticas de Constantino nos rendemos em troca de nos tornarmos a religião oficial do Império. Assim, de perseguidos, nos tornamos perseguidores, invertendo o caminho paulino, e subvertendo nossa missão. Só assim nos libertaremos de nossas intrigas internas, sempre tão bem camufladas por uma discrição que, de cristã, nada tem. A exemplo de Fransciso de Assis e Tereza de Calcutá nos façamos pobres para com estes melhor nos identificar e cumprir nossa missão evangelizadora, antes que seja tarde demais.

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