quinta-feira, novembro 25, 2010

O Papa e os ofendidos

A julgar por algumas reacções que suscitou a visita do Papa a Espanha, poder-se-ia pensar que Bento XVI procurou deliberadamente o confronto ou utilizou um tom agressivo ou polémico. Contudo, a leitura dos discursos desmente tal atitude.

Que a doutrina católica, especialmente em assuntos como a sexualidade ou a família, não é bem recebida em muitos meios de comunicação espanhóis é uma coisa por demais sabida. Mas a recente visita papal pôs em evidência, além disso, uma profunda diferença de atitudes:
  • de um lado, o discurso construtivo, respeitoso e razoável - quer se esteja ou não de acordo com as suas opiniões - do Papa;
  • do outro lado, as reacções dos seus críticos, que vão desde a indignação mais profunda até à troça grosseira e superficial, de mau gosto nalguns casos.

As críticas a Bento XVI surpreendem mais ainda porque o Papa não incidiu senão nos temas que têm pautado desde o início o seu magistério: a relação entre razão e fé, a defesa da dignidade humana, o papel insubstituível da família natural, o laicismo. Recolhemos algumas das suas declarações, tiradas dos sete discursos pronunciados tanto em Santiago de Compostela como em Barcelona, a da entrevista que concedeu na viagem até Santiago.

Abertura à razão e à fé

Um dos empenhos intelectuais de Bento XVI é despertar o sentido de transcendência num ser humano com a religiosidade adormecida ou completamente apagada por dois séculos de secularização. Na homilia da Praça do Obradoiro (Santiago) afirmava: "É uma tragédia que na Europa, sobretudo no século XIX, se afirmasse e divulgasse a convicção que Deus é o antagonista do homem e o inimigo da sua liberdade".

Bento XVI denunciou repetidas vezes a marginalização dos valores religiosos como uma interpretação perniciosa da separação sadia entre Igreja e Estado. A este respeito augurava "uma Espanha e uma Europa preocupadas não só com as necessidades materiais dos homens, mas também das necessidades morais e sociais, das espirituais e religiosas, porque todas elas são exigências genuínas do homem como um todo".

O "homem como um todo" que o Papa se esforça em compreender é o racional, mas também o homem de fé e o artista. Assim o manifestou nas declarações durante a viagem de chegada a Espanha: "A fé, e a fé cristã, só encontra a sua identidade na abertura à razão, e a razão só se realiza se transcende para a fé. Mas também é importante a relação entre fé e arte, porque a verdade, fim e meta da razão, se exprime na beleza e se auto-realiza na beleza".

Laicidade e Laicismo

As declarações que incendiaram a mecha da polémica foram parte de uma resposta do Papa à pergunta acerca de se a Espanha era um dos objectivos primordiais da nova evangelização. Bento XVI sublinhou a importância que a Espanha tinha tido como baluarte do catolicismo em vários momentos históricos, mas também lembrou o forte laicismo e anticlericalismo dos anos 30. Depois acrescentou: "este confronto entre fé e modernidade, ambas muito vivas, se repete na Espanha actual".

Estas palavras, que alguns criticaram por entender que suponham uma comparação inoportuna com a Espanha dos anos 30, entroncam com a ideia que Bento XVI quer propor de laicidade. O Papa continuou dizendo: "por isso, o futuro da fé e do encontro - não do confronto mas sim do encontro - entre fé e laicidade, tem um foco central também na cultura espanhola". Depois destas declarações, torna-se difícil continuar a defender que o catolicismo olha com maus olhos a separação entre Igreja e Estado, quer dizer, a laicidade.

Outra coisa é o laicismo, que supõe uma interpretação negativa do facto religioso - seja de que credo for - por o considerar potencialmente perigoso para a convivência, e exige um espaço público "neutro", ainda que essa neutralidade acabe em ateísmo prático. Desde o princípio do seu pontificado Bento XVI não tem deixado de alertar para o perigo de silenciar no domínio público as questões acerca de Deus. Na homilia de Santiago de Compostela perguntava: "Como é possível que se tenha feito silêncio público sobre a realidade primeira e essencial da vida humana? Como pode o mais determinante dela ser encerrado na simples intimidade ou remetido para a penumbra?"

Dignidade humana

"Deixai-me que proclame daqui a glória do homem". Estas palavras, que podiam ser subscritas por qualquer literato, foram pronunciadas por Bento XVI na Praça do Obradoiro de Santiago. E outro dos temas mais frequentes nos discursos do actual Papa é a defesa da dignidade humana como criatura predilecta de Deus. Um dia mais tarde, em Barcelona, comentaria a este propósito umas palavras de São Paulo: "Não sabeis que sois templo de Deus?... O templo de Deus é santo: esse templo sois vós (1 Cor 3, 16-17). Eis aqui unidas a verdade e dignidade de Deus com a verdade e dignidade do homem".

Esta dignidade do homem não deve ficar, segundo Bento XVI, numa consideração bonita, mas deve funcionar como moderadora da actividade política e da investigação científica, particularmente no controverso campo da bioética. Assim, na mesma homilia de Barcelona, o Papa clamava "quem tem deficiências psíquicas ou físicas pode receber sempre aquele amor e atenções que os faça sentir-se valorizados como pessoas nas suas necessidades concretas".

Igualmente, Bento XVI recordou o papel da doutrina cristã para assegurar uma forma de organização social e política respeitadora da dignidade do homem: "onde não há entrega ao serviço dos outros surgem formas de prepotência e exploração que não deixam lugar para uma autêntica promoção humana integral".

Primazia da família

A dedicação da Basílica da Sagrada Família foi ocasião de Bento XVI recordar a primazia que a Igreja católica e ele pessoalmente concedem à família: "É o grande tema de hoje e mostra-nos até onde podemos ir tanto na edificação da sociedade como na unidade entre fé e vida, entre religião e sociedade". O Papa está perfeitamente consciente que as batalhas do laicismo e da dignidade humana se travam, em primeiro lugar, dentro do âmbito da família.

Uma das críticas mais frequentes contra a Igreja católica é a de machismo: a não ordenação de mulheres ou a promoção da maternidade são vistas por alguns como formas de desprezo pelo feminino. Umas palavras da homilia de Barcelona serviram de desculpa para tornar a agitar esta acusação: "a Igreja defende as medidas económicas e sociais adequadas para que a mulher encontre em casa e no trabalho a sua plena realização". A referência à casa incomodou os que pensam que os trabalhos domésticos derivados da maternidade implicam um mecanismo de repressão da feminilidade.

Contudo, outros viram nas palavras do Papa justamente a mensagem contrária: o trabalho e a família são dois campos nos quais a mulher se realiza como pessoa, e portanto a administração pública deve velar para que ambos sejam compatíveis e a mulher se realize plenamente. Uma interpretação muito mais plausível, por estar mais perto da literalidade das declarações. Outra coisa é que alguém se empenhe em ofender-se.

Fonte: Aceprensa

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