segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Bispo lança livro e desafia leis da Igreja

Há temas que quase toda pessoa, seja católica ou não, gosta de se posicionar. Alimentar discussões e polémicas. Entre eles o celibato sacerdotal e o direito das mulheres celebrarem missas. O Vaticano costuma tratar os assuntos com certo cuidado. E poucas vozes da Igreja, nas últimas décadas, ousaram contribuir com o debate fora das paredes dos seminários e das cúrias.
O bispo emérito da Diocese de Nova Friburgo (Rio de Janeiro), dom Clemente Isnard, resolveu derrubar tais barreiras. Aos 90 anos e reconhecido internacionalmente por seu trabalho no campo litúrgico, ele lança hoje o livro - Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas actuais - onde promete lançar lenha para a fogueira.
E não fala apenas do celibato e das mulheres, trata de um dos pontos quase intocável no Vaticano: a participação dos leigos na escolha dos bispos.
O lançamento nacional ocorreu na Igreja da Fronteiras, bairro do Derby. Um sinal de reconhecimento ao trabalho feito por dom Helder Camara.

"Fala-se tanto na falta de sacerdotes, das paróquias sem padres, nos padres que se secularizaram deixando o ministério. E não se pensa nos padres de valor e que se casaram e que poderiam continuar a exercer o seu ministério se a Igreja lhes tivesse concedido matrimónio", argumentou o bispo emérito.
Dom Isnard encontra justificativa para seu posicionamento na experiência.
Foram mais de 30 anos à frente da Diocese Nova Friburgo.
E também no conhecimento histórico.
Ele lembra que a exigência do celibato apareceu pela primeira vez por volta do ano 300, mas que ainda hoje as igrejas orientais católicas permitem que os padres se casem. Segundo o religioso, a multiplicação dos diáconos permanentes é um sinal de que o padre casado seria bem aceite em muitos lugares. Os diáconos são homens casados ou celibatários que podem pregar, mas não estão autorizados a consagrar a hóstia e o vinho.

Dom Isnard recorre ao olhar de pastor para se posicionar em defesa das mulheres.
"Na minha longa vida conheci padres incapazes de serem párocos e conheci religiosas e leigas consagradas com capacidade de dirigir comunidades", testemunhou.
Para o monge beneditino, a dispensa do celibato não é uma mudança teológica, mas disciplinar. E
sugere a necessidade de se analisar a Bíblia, quando São Paulo afirma que todos - judeu e grego, servo e livre, macho e fêmea - são iguais perante Deus. "Este parece-me um poderoso argumento bíblico a favor da ordenação de mulheres".

As análises do autor voltam-se também para a eleição dos bispos.
"Nos nossos dias o povo não é escutado na eleição, mas pode se manifestar na hora do funeral", afirma, lembrando que a participação dos leigos nas eleições era comum no primeiro milénio de existência da instituição. Esta prática foi caindo em desuso com a crescente interferência dos reis. Diante do que viveu e conhece, o bispo emérito defende que o ideal seria voltar ao regime do primeiro milénio, onde bispos, clero e povo participavam das escolhas.

O povo, exemplifica, seria homens e mulheres inseridos na Igreja, idosos e jovens, em número que expressassem as duas categorias E conclui, de maneira incisiva que a "descentralização das nomeações episcopais traria um alívio notável para as finanças da Sé Apostólica, uma vez que o pessoal da nunciatura não precisaria ser tão numeroso". Coicindência ou não, dom Isnard contou que uma cópia do seu livro foi entregue ao núncio apostólico no Brasil antes da publicação. E esse teria pedido a Editora Paulus, com quem estava outra cópia do texto, para não publicar o livro.

Ainda sobre os bispos, dom Isnard pergunta como recuperar um episcopado zeloso, culto e avançado. Ele mesmo responde que na situação actual seria necessário um novo concílio ecuménico para completar o Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 e responsável por mudanças na Igreja. Uma delas foi a permitir a celebração das missas em diversas línguas, acabando com a ditadura do latim. Mesmo apontando o caminho, o bispo emérito acredita que dificilmente haveriam mudanças hoje. Isso porque a Cúria Romana prepara e redige tudo.
Fonte: aqui

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