quarta-feira, agosto 10, 2005

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE: que contributo para Igreja do século XXI?


Uma grande onda de contestação tem atingido as Jornadas Mundiais. Muitos insistem em que elas não passam de fogo de vista e que os jovens que lá vão nada fazem nas paróquias e vão só por turismo. Dá a impressão de que estas vozes consideravam ingénuo o Santo Padre João Paulo II e as suas constantes interpelações a que os jovens fossem em grande número para estes encontros. Porém, como é de todos sabido, mesmo as propostas turísticas da Igreja cada vez menos dizem aos jovens do nosso tempo. Aqueles que decidem tirar 15 dias de Agosto para ir a um Encontro Mundial de jovens com oração e reflexão todos os dias, não o fazem propriamente por causa das visitas diárias a algumas Igrejas e praças de Colónia.
João Paulo II não era nada ingénuo. E se tinha consciência que muitos daqueles jovens só iam pela festa, sabia ainda com mais precisão que:
1º - as jornadas são um testemunho público de fé que fica aos jovens na memória para toda a vida;
2º - muitos deles fazem aí uma caminhada espiritual de oração, reconciliação e Eucaristia que depois se esforçam por manter no dia-a-dia;
3º - as Jornadas Mundiais são uma prova muito real à vitalidade e entusiasmo pastoral das dioceses organizadoras e participantes.
Noutros tempos, as peregrinações a Compostela, a Terra Santa, a Tours ou a qualquer santuário local ou, então, a peregrinação permanente durante a vida também eram objecto de crítica por parte de vários membros da Igreja. Hoje a peregrinação e os santuários são considerados como património antropológico e religioso de incontornável valor. Não poderão as Jornadas Mundiais da Juventude - uma espécie de nova acção da Igreja com categorias mais ou menos inéditas até ao século XX - passar a constituir uma nova forma de acção que adquira direitos de cidadania dentro da pastoral da Igreja? Bento XVI é um homem de grande sobriedade. Não é nada inclinado a manifestações exteriores demasiado eufóricas e despropositadas. Certamente ele ajudará a equilibrar alguns exageros que muitos, sob a capa de João Paulo II, ousaram cometer. É curioso que tenha anunciado que as beatificações deixarão de ser presididas pelo Papa. Mas anunciou também que a sua primeira visita pastoral será a Alemanha, nas Jornadas Mundiais da Juventude.
As Jornadas Mundiais da Juventude têm muito para dar na preparação, celebração e no compromisso pós-conclusivo. Vejamos apenas 3 das suas potencialidades.
1. A dimensão vocacional explícita. É curioso que o Encontro com seminaristas e neo-presbíteros que teria lugar com o cardeal Meisner foi arrebatado por Bento XVI! Vai ser ele a presidir a este encontro (apesar de ter a agenda desse dia a tope!). Bento XVI não ignora a importância que tem este encontro e como a concentração de sacerdotes, religiosos/as e candidatos/as é um testemunho que interpela. Os dias que os consagrados passam com os jovens, no contacto permanente e banal de cada momento ou intenso e profundo de algumas horas, desfazem preconceitos, constroem pontes e apontam caminhos. A maior parte da juventude de hoje apenas vê o padre no Altar e o/a religioso/a no colégio, no convento ou em actividades religiosas. Nas Jornadas Mundiais não só rezam com eles mas comem, brincam, dançam, cantam e descansam com eles. E descobrem que são pessoas como eles mas. diferentes porque foram chamados por Deus (como tantos jovens!) e responderam com um sim corajoso.
2. Experiência da apostolicidade da Igreja. As Jornadas podem ser uma experiência e uma catequese sobre a Igreja. Foi interessante a forma como os meios de comunicação (laicos) progrediram na sua linguagem e conhecimentos religiosos desde a morte de João Paulo II até à eleição de Bento XVI e transmitiram muita doutrina na televisão e na rádio. Para muitos jovens, o único Papa que conheceram foi João Paulo II. Mas hoje é necessário conhecer Bento XVI e saber que é ele quem calça hoje as sandálias de Pedro. Para ser Papa não é preciso ter o sorriso maravilhoso de João Paulo II nem o seu carisma de comunicador. É preciso que Deus pouse seus olhos sobre uma pessoa e essa pessoa não lhe troque os olhos. E Joseph Ratzinger não os trocou como não os trocara Karol Wojtyla. Isso os jovens vão aprender e experimentar. Vão dar conta que ele não é o «panzer-cardinal» nem o «pastor alemão» que alguns disseram mas sim o Pastor da Igreja, que segue Cristo Jesus à nossa frente. E até vão saber que nas primeiras palavras programáticas de Bento XVI, depois de eleito, ia uma mensagem afectuosa para eles. Vão perceber melhor o que é a apostolicidade e universalidade da Igreja, não numa aula pesada de eclesiologia, mas sim numa paróquia que os acolha sem (talvez) nunca mais os voltar a ver nesta vida e nuns bispos e num Papa unidos à volta da mesa da Eucaristia, sobre a qual está Aquele que todos vamos adorar.
3. Desafio às dioceses e paróquias portuguesas. As jornadas foram «glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo» e o regresso a Portugal «como era no princípio, agora e sempre»?!!! Não! A vida depois tem de ser diferente. A experiência das JMJs não pode ser um comprimido efervescente. Tem de frutificar num «novo humanismo cristão», como pediu Bento XVI, durante as suas férias, aos jovens que vão participar. No regresso, é necessário que cada pároco, cada secretariado, cada bispo queiram encontrar-se com os seus jovens participantes e perguntar-lhes: «e agora? Vai tudo continuar na mesma?». Um/a jovem que participou nas Jornadas traz um entusiasmo que a paróquia não pode desperdiçar, traz uma alegria que as famílias têm de sentir, traz uma fé que as escolas, universidades, comércios, fábricas têm de notar. É preciso ter a coragem de exigir aos jovens que regressam que se integrem nas comunidades, que partilhem o que viveram, que não enterrem esse tesouro. Mas isso depende de nós, agentes de pastoral, da nossa ousadia e coragem. Às vezes, somos nós os primeiros a não perguntar por receio e os jovens ficam frustrados pela nossa mediocridade. Que não seja assim no regresso. Vamos voltar com os pés bem postos na terra: não se operam milagres nas Jornadas. Não se encontra nelas a pedra filosofal. Mas é colocado no coração de cada jovem um grão de mostarda que, se crescer, «torna-se maior e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra» (Mc 4, 32).
(por Pablo Lima, Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil de Viana do Castelo).
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2 comentários:

  1. Não faço nada de que não tenha certeza de que seja proveitoso. Por isso vou a Colónia. Nestas coisas, acho que só quem participa pode falar do que o acontecimento realmente proporciona pessoalmente. Tb tenho cnsciência que haverão muitos jovens turistas em Colónia. Mas até nesses João Paulo II pensou. Ou não fosse o tema relacionado com os magos que vêm descobrir Jesus de todos os lados, nações, etnias, confissões...
    Vou a Colónia e depois digo-vos se valeu ou não. De uma coisa tenho a certeza: Não há no planeta tão grande manifestação organizada e sistemática de comunhão de fé! Para os jovens é "O ENCONTRO".
    Abraços.

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  2. Bem, já não sou eu que vou a Colónia: é o meu filho que parte hoje, e para isso - para pagar isso - trabalhou durante o mês que passou (só lhe fez bem, note-se!! :P) Mas não dei por que houvesse "grande contestação". Houve? Quem, os "nós somos não sei o quê?" ;)

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