quinta-feira, dezembro 10, 2009

Cesaropapismo dissimulado

A grande deficiência da cristologia hoje é a cristologia política da Igreja antiga, isto é, influência dos interesses políticos na teologia. Compreende-se que isto tenha acontecido num determinado tempo da história, na época da decadencia do Imperio. Aquilo estava a afundar-se e era necessário agarrar-se a alguma coisa. Como se aperceberam que o cristianismo estava a crescer, os imperadores agarraram-se a ele. Mas, claro, a eles não lhes interessava um Deus crucificado. E o grande problema com que se depararam foi que o cristianismo pregava que o Deus no qual acreditavam era um crucificado, isto é, um escravo, ou um extrangeiro, ou um subversivo. Como resolveram o problema? Criando um Deus Todo-poderoso. El pantocrator, que era um título imperial que acrescentaram a Jesus Cristo. Porém, o o Deus que encontramos nos Evangelhos é um Deus misericordioso.
Na verdade, as pessoas não precisam de poderes que as dominem, mas de compreensão, misericórdia, respeito, tolerância, ajuda diante da debilidade. Este é o melhor serviço que a Igreja pode prestar. E isso não o pode fazer uma Igreja de poder. E ao olharmos para o Vaticano dá a sensação de que estamos diante de um grande poder. Porém, isto não é só uma sensação, mas é uma realidade. A cúpula e a praça de São Pedro, a magestuosidade dum cardenal revestido com todos seus ornamentos, são uma expressão simbólica duma realidade.

A Igreja prega continuamente o Evangelho. Existem muitas pessoas na Igreja que o pregam, vivem, e sofren por causa do Evangelho. Existem bispos, sacerdotes e religiosas e religiosos que o fazem em sitios onde niguém quer ir. Padres que passam verdadeiramente mal, nos piores sitios. No entanto, isso não é notícia. O que é notícia são as grandes reuniões na Praça de São Pedro, as viagens do Papa que a qualquer sítio onde vai tem de ser recibido como um grande deste mundo, como um chefe de estado!
E as pessoas não entendem. Porquê? Como associar estas imagens com aquelas que se leêm no Evangelho? Jesus, quando mandou os apostolos a evangelizar disse-lhes: "Não leveis dinheiro, nem cajado, nem sandálias; não leveis duas túnicas". Porque é assim que se evangeliza.

Eu creio que evangelizou mais São Francisco de Assis com a sua humildade e a sua simplicidade, ou muitas outras pessoas por ai perdidas, padres, monjas, leigos... do que estas personagens que aparecem com esta pompa. E o pior é que esta tendencia está crescendo ultimamente. Caminhamos a passos largos para uma Igreja da pompa e da liturgia e afastamo-nos cada vez mais dos pobres. E isto acontece na medida em que a Igreja perde poder no tecido social. Quanto menos poder, mais tendência a agarrar-se a estas coisas. É por isso que vemos a Igreja cada vez nais agarradada ao integrismo dogmático...

O Decisivo seria o Sermão da Montanha, mas esse exigiria outra postura...
Fonte: O teólogo José María Castillo: "La humanización de Dios".

8 comentários:

  1. Parabéns pelo texto.

    Deveria lê-lo o senhor Silva que a pensar na sua improvável reeleição tenta dividendos políticos numa vergonhosa confusão de chefe de estado com sacristão do Papa.

    A César o que é de César.

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  2. Estou fazendo uma Campanha de Natal para crianças necessitadas da minha comunidade carente,são crianças que não tem nada no Natal,as doações serão destinadas a compra de cestas básicas-roupas-calçados e brinquedos. Se cada um de nós doar-mos um pouquinho DEUS multiplicará em muitas crianças felizes. Se voce quiser ajudar é fácil,basta depositar qualquer quantia no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Voce verá como doar faz bem a Alma,obrigado. meu email asilvareis10@gmail.com

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  3. "Existem bispos, sacerdotes e religiosas e religiosos que o fazem em sitios onde niguém quer ir. Padres que passam verdadeiramente mal, nos piores sitios. No entanto, isso não é notícia."

    Notícia é protagonismo mediocre...

    Abraço

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  4. A notícia que Jesus reconhece e agradece é o Amor transformado em caridade, fraternidade, partilha, distribuído com alegria.
    Maria

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  5. Há pessoas que se convertem por causa desse magnífico trabalho escondido, por parte de muitos padres e freiras ou religiosos, há pessoas que se convertem pela beleza da basílica de S.Pedro ou dos museus do vaticano, há pessoas que se convertem com as palavras ou a vida dos Papas, há pessoas que se convertem com muita coisa.

    O que não há são pessoas que se convertem com estes discursos moralistas. Para demagogia já basta os políticos.

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  6. Que hei-de comentar?!
    Esta ansiedade mais ou menos clandestinizada de uma libertação para a descoberta do verdadeiro Jesus e do seu Jesuanismo é sinal de que o Espírito ainda anda por aí...
    Pelo que pensa e escreve, deve conhecer o presbítero Mário de Oliveira, da Lixa: www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
    Um abraço

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  7. Desculpe caro amigo, mas considero este texto, pelo menos este excerto, muito superficial, ou seja, parece-me que as coisas não podem ser analisadas com esta simples comparação, embora não deixe de apontar para algumas tendências verdadeiras que muitas vezes colocam a Igreja a jogar com o poder e isso parece-me por vezes acontecer mais nas Igrejas de alguns paises, do que propriamente no Vaticano.

    E confesso que não sei, passe a comparação, onde será hoje em dia mais difícil evangelizar: em África ou na Europa?

    Um Santo Natal.

    Abraço amigo em Cristo

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  8. Nossa estrutura eclesiástica é por demais verticalista. As decisões que verdadeiramente contam são aquelas despejadas por Roma para o mundo. Exporta-se um modelo de ideologia e teologia a lugares nos quais aquilo nada significa de positivo, tornando-se algo opressivo. O status de Igreja "Mãe e Mestra" nos impede de aprender, de rever posicionamentos, de crescer, de nos humanizarmos. A organização do vaticano é, infelizmente, uma cópia de mau gosto do Império Romano, e, assim, permite que grupos e movimentos religiosos desta estirpe se espalhem e tenham uma força descomunal, empurrando a Igreja para o passado, tornando-se inimiga e adversária do presente. Desta feita, deixamos de construir o futuro e a esperança, apegando-nos ao poder religioso ao invés de, a exemplo de Cristo na última ceia, despirmo-nos de nossas vestes exteriores e debruçarmo-nos aos pés daqueles que somos vocacionados a servir. Uma Igreja que manda não pode ser uma Igreja que serve. Antes abandonar certas estruturas e posicionamentos do que a caridade e a fraternidade.

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