sexta-feira, julho 08, 2005

O ATEíSMO DE MUITOS "CRENTES"

É claro que me preocupa sobremaneira o ateísmo dos que se assumem não crentes. Não oculto, contudo, que ultimamente o que mais me tem atormentado é o ateísmo dos que se dizem crentes. Daqueles que, confessando Deus com, os lábios, acabam por negá-Lo com a vida. Não é difícil discernir sobre qual deles será mais danoso e perturbador.
Tendo qualificado o ateísmo como um “dos factos, mais graves do tempo actual”, o Concílio Vaticano Il não hesitou em atribuir aos crentes um papel determinante na sua génese e no seu crescimen­to. Referia-se em especial àqueles que, por debilidades na formação e por contradições na vivência, “escondem, em vez de revelar, o au­têntico rosto de Deus e da religião”.
Todos nós temos perfeita noção de que uma fé que não se projecte na vida contradiz-se a si mesma. De que uma fé que não se traduza em compromisso com a justiça e em militância na causa da liberdade implode num ápice. De que uma fé que não prime pela coerência morre num instante. .
Não sei, por isso, o que será preferível neste campo: se uma nega­ção real, se uma adesão virtual à fé. Ao menos, no primeiro caso, salvaguarda-se a verdade sempre libertadora (Jo 8, 32).
Foi neste contexto que me causou muita impressão uma confi­dência do Prof. Oscar Lopes. Segundo ele, “o homem que mais contribuiu para o abalar das suas convicções foi um padre”. Simplesmente porque, na sua óptica, “ele próprio (o referido sacerdote) não acreditava” .
É natural que haja algum exagero. É provável que o conhecido ensaísta nem tenha razão. Mas estaremos em condição de subtrair pertinência ao que afirma?
Noutro plano, quando o realizador Carlos Carrera sustenta que “a Igreja é pouco cristã”, é natural que um assomo de indignação percorra todas as fibras do nosso ser. De facto, uma Igreja ou é inte­gralmente cristã (pelo simples motivo de pertencer a Cristo) ou não é Igreja. Interrogue-mo-nos: Procurarão os membros da Igreja reproduzir - na sua vida - as palavras, os sentimentos, os gestos e as atitudes de Cristo? Ou não sucederá que, em lugar de um mínimo de sintonia, estarmos a patentear um máximo de contraste para com Ele?
Tomemos como referência a relação Jesus com o Pai, critério decisivo e instância suprema para a aferição da sinceridade. Na boca de Cristo, “Abba-Pai” era uma expressão recorrente. E em nós, cristãos?
Já não é a primeira nem a segunda vez que assistimos a longas entrevistas com pessoas credenciadas, que desempenham funções de grande relevo na Igreja. Passam-se os minutos fala-se dê tudo; e, para nosso espanto, de Deus... nada. Ou muito pouco.
É por isso que chego à conclusão que uma boa fatia do ateísmo contemporâneo não visa atingir directamente Deus, mas o comportamento de muitos que presumem falar - e agir - em Seu nome.
Arrisco mesmo dizer que há ateus que não estão saturados de Deus nem desiludidos com Deus. Pelo contrário, até sentirão uma incontida saudade e uma tremenda nostalgia da Sua presença. Por conseguin­te, se alguma coisa esperam não é que falemos menos de Deus. É que falemos mais. Não tanto com as palavras dos nossos lábios, mas com a palavra da nossa vida.
Porque, para o bem e para o mal, é a vida que vale. Que conta. E que decide.

14 comentários:

  1. Grande interrogação! Post muito profundo!
    Já uma vez perguntei a um padre se ele acreditava em Deus, dada a forma desumana como se comportava!

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  2. Vítor Mácula13 julho, 2005

    Boa tarde a todos.

    Concordância total, exclamativa e alegre com todos os enunciados deste post – excepto talvez o de o ateísmo ser um dos “factos mais graves do tempo actual, se for no sentido de haver pessoas que devlarem não acreditar em Deus. Quero dizer que não é claro para mim que seja, dos factores actuais, incluindo o fundamentalismo de todos os géneros, “um dos mais graves”. Mas passemos. De qualquer modo, o Concílio Vaticano II já foi há algum tempo, e no tempo tecnológica e politicamente em que vivemos… Enfim…
    Quero deixar uma impressão directa e sumária relativa ao post e à ligação entre cristianismo e Igreja “visível”.
    É por vezes difícil imaginar o Cristo e até S. Paulo com a sua efígie numa moeda, denominando-se de sumo pontífice, distribuindo as suas palavras através da editora do Sr. Berlusconi e a estabelecer normas quase farisaicas que pensam poder determinar como e quando deve um católico coçar o pé ou beber o seu café matinal (e se é que o pode!).
    Dito isto, afirmo por outro lado que as suas normas doutrinais, do ponto de vista formal, não me parecem anti-cristãs – embora tenha sérias e irónicas dúvidas em relação à legitimação circunstancial da pena de morte. (Sérias perante a sua execução real, irónicas perante uma suposta legitimação cristã).
    É evidente que na imitação de Cristo não se trata de copiar a sua vida mas de a tomar como modelo para a nossa própria e diferente vida. Mas penso que convém que a remissão indirecta para o modelo seja clara, e que as linhas de orientação não sejam contrárias ao modelo.
    Ou seja, deixo a questão de se o “E em nós, cristãos?” não se põe apenas em relação a indivíduos leigos e ordenados, mas também aos modos de constituição e acção da Igreja Romana enquanto instituição.
    Para evitar equívocos, esclareço que não estou minimamente a fazer um “statement” contra ou a favor da Igreja Romana. Sou católico - geralmente prefiro o termo “cristão”, que não remete directamente para a possível universalidade nem para o Vaticano, mas para o cerne e fundamento da minha (pouca, frágil, confusa) fé, mas uso-o aqui, precisamente para esclarecer eventuais equívocos. Venho aqui, não só partilhar “certezas” mas também (sobretudo?) dúvidas e temores. Com a maior autenticidade que me for possível.

    Um grande abraço, e obrigado por este blogue.

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  3. Não existe fé, seja qual for, que possa ser individualizada. A comunhão com meu próximo é um preceito básico da fé cristã, Jesus deixou isto claro nas suas parábolas. Como podemos nos considerar pessoas de fé, quando pregamos o individualismo. Isto não é ateísmo, mas "ego-ismo", é a transformação do "eu" em meu deus. Meu deus é o que carrego em meu coração.

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  4. Vitor Mácula, falou e disse.
    Muito gosto de o encontrar também por aqui.
    Também não gosto muito das pretensas certezas da fé. Prefiro a perseverança do caminho.
    M. Conceicao

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  5. Vítor Mácula14 julho, 2005

    Caro aahollas.

    Isso exige algum esclarecimento, e o seu próprio comentário assim o indica se relacionarmos a primeira frase com a última. Eu não “gosto” muito da palavra “individualizado” porque dá ideia que separa, cria uma cisão, fecha a pessoa nela própria. Mas diria sim que a fé é algo que se dá na particularidade e subjectividade da pessoa (vinda evidentemente “de fora”), tomando-a no seu todo e nesse “arrebatamento” interior e pessoal a abre aos outros e ao mundo, modelada interior e exteriormente em Jesus Cristo (no caso da fé cristã). É isto que eu entendo como “comunhão”, não se trata de massificação social alguma: é a pessoa particular e concreta que é tomada e nunca anulada, chamada e não forçada, e por isso há muitas moradas. A negação de si remete para a descentralização do eu fechado em si-próprio, e não para qualquer escravatura da mente, do coração ou do corpo.
    Nós não temos acesso directo à Igreja Triunfante (corpo místico de Cristo) mas sim à Igreja Militante (comunhão de crentes que tentam viver em Jesus Cristo juntamente com o joio). E nesta devemos continuamente amar-nos e vigiar-nos uns aos outros, das bases ao “topo”. Os cristãos não são de Paulo nem de Apolo etc etc mas de Cristo.
    Penso também, e esta é mais pessoal, que devemos partilhar as dúvidas e fragilidades tanto da nossa fé pessoal como comunitária, sem subterfúgios, e não “recalcar” o que se pensente porque “parece mal” ou outra coisa do género (por exemplo, uma defesa intransigente dum grupo social mesmo quando este age “mal”). Isto na humildade e na constante dúvida de si próprio, evidentemente.
    O cristianismo não é fácil nem evidente.

    Um abraço, e obrigado.

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  6. Vítor Mácula14 julho, 2005

    Cara M. Conceição

    Muito gosto igualmente.
    Em duas frases você “acerta mesmo em cheio”.

    Um abraço.

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  7. Vitor
    conhece o ditado popular: "Quem pouco sabe, depressa o reza"? É o meu caso.

    Em todo o caso e voltando ao tema do post, porque isto de facto dá pano para mangas, temos de nos questionar em que Deus, é que as pessoas hoje não acreditam. A mim, venderam-me um desenho de um Deus, que quer que nós andemos todos certinhos, direitinhos, muito fiéis ao Papa e ao nosso prior. Tendo como guia fiel o Catecismo da Igreja Católica. Sofrendo muito, e oferecendo isso pelos nossos pecados e pelas alminhas do purgatório. Tendo como guia seguro o nosso anjo da guarda. A nossa vontade nunca coincide com a vontade de Deus. Ser santo é sinónimo de grandes castigos corporais e mortificações espirituais. Temos a garantia de que estamos a caminhar para Deus, se formos todos os domingos à missa, nos confessarmos, fizermos muitas coisas religiosas. Perante um religioso assim Deus, só tem que se converter a nós e um dia ter lá, o céu, à nossa espera. E se possível com um lugar de camarote. Porque nós somos os bons.
    Bem, a este Deus, tão largamente pregado, as pessoas respondem com a negação.
    Agora, se formos ao Evangelho e anunciarmos o Deus de Jesus Cristo, que como nos descreve João: "Deus é Amor", já teremos mais hipóteses de estarmos verdadeiramente ao serviço de Deus, porque estamos ao dos irmãos.
    Jesus bem disse que Deus não quer holocaustos nem sacrifícios, mas um coração arrependido. E que, o único lugar para adorar Deus é no nosso coração.
    Vamos muito solenes receber Jesus no pão consagrado, mas quando chegamos ao nosso lugar, já nos esquecemos de que Ele já estava no nosso coração ansioso, por em nós, louvar ao Pai. E que os irmãos ao nosso lado, e lá fora na rua e no mundo todo, são igualmente "portadores" deste Deus em nós.
    Dava-nos tanto jeito, se Deus às vezes, se pusesse a gritar aos nossos ouvidos; "Onde é que andas, minha parva, à minha procura? Eu estou aqui contigo, no mais íntimo de ti mesma, não quero mais nada de ti, tão só que tu me acolhas"

    Pois é, ao Deus escondido dos sacrários, tanta gente vai dizendo; "que não". É preciso que resgatemos o Deus vivo, dentro de cada um de nós.
    S. Paulo que sabia disto, melhor que nós, bem dizia: "Não sabeis que sois templos do Espírito Santo?" E logo a Igreja, se apressou a ver aqui, uma exortação à moral sexual.
    Como se a sexualidade humana, não fosse querida e acolhida por Deus.
    E cá andamos há dois mil anos a dizer que os maiores pecados do homem são de índole sexual. E tantos irmãos nossos que vivem em condições desumanas e que nós condenamos à morte todos os dias.
    Quem vai dizer a esses irmãos que o sentido para a sua vida é Deus? Mostramos-lhe a cruz e o sacrário, entederão eles do que estamos a falar?
    Se não lhe mostramos o nosso coração convertido, não repartirmos com eles o nosso pão e o nosso carinho, de que Deus lhe iremos falar? É falta de fé deles, ou é uma blasfémia da nossa parte?

    Ai, ai, agora podem bater. Mas saiu-me de dentro da alma.

    M. Conceicao

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  8. Outro grande post. Obrigado Padre. E no meio disto há uma coisa que me parece devia ser visto com atenção por nós, católicos. De certa forma, nós (enfim, Cristo...) des-sacralizámos o mundo. Deixou de haver, desde que chegámos, bosques sagrados, pedras sagradas, tempos sagrados, rituais mágicos. Ou mantiveram-se na cultura "rural" mais como uma "resistência" do que como uma transformação. E isso foi como retirar areia dos rios: com a maré da "razão" moderna, as crenças aldeãs desapareceram e... olha, o Natal é dia de compras e o domingo dia de benfica. "Que fazer?", como perguntava o Lenine na véspera da Revolução.

    Caro Vitor, ainda bem que o apanho "exclamativo e alegre" :) Posso pedir o favor de me enviar um e-mail para que eu possa devolvê-lo cheio? O meu endereço está no meu blog. Como disse Adão, "a ideia não foi minha; a mulher falou-me nisso e eu fui atrás"; a Eva, aqui, é a Conceição. Obrigado.

    Conceição... bem, pois, sim, claro. Nisso tudo há um mistério para mim (refiro-me ao tema do comentário, na parte "paulina"). E quanto mais leio menos entendo. Mais uma coisa para discutir em conjunto. E não serei eu quem bate.

    Um abraço.

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  9. Padre, sou um idiota. Na parte do post, comentava o seguinte a este. Desculpa. Entusiasmei-me.

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  10. Vítor M´21 julho, 2005

    Cara M. Conceição.

    Relativamente a Deus, à Revelação, à Igreja, à conversão… quem é que não pouco sabe?... O cristianismo é uma “proposta” existencial e, sendo assim, a sua linguagem própria é a da vida – a teologia, a pastorícia, os diversos serviços eclesiais são “instrumentos” ao serviço dessa busca e confirmação das formas de vida em jogo no apelo de Jesus. Não “serve” de nada remeter-nos para um modelo qualquer que nos representamos (um santo, o papa, um eu idealizado…) e que não inclui as nossas dúvidas e contradições reais, vividas. É evidente que há, cristologicamente falando, dois níveis de contradição: um, entre a nossa natureza e a violência a ela que a graça pressupõe, e o outro, entre o apelo de Jesus e o nosso modo de adesão. É muitas vezes com a confusão entre estes dois níveis que alguns defensores intransigentes da Igreja enquanto instituição pretendem calar a relação pessoal com Jesus. A técnica é simples: associa-se todo e qualquer acto ou dizer eclesiástico à palavra de Deus e classifica-se as interrogações e dúvidas como revoltas ou desobediências. A questão é – e por isso, deve haver partilha e comunhão de experiências de vida – se essa interrogação é fruto do meu egoísmo natural, ou se é fruto da minha constante conversão. Quando me interrogo sobre a pena de morte, faço-o em nome da minha relação com Jesus; quando a M. Conceição interroga a fraternidade ou a sexualidade, fá-lo também “a partir” de Jesus – isto é, a partir da sua vivência sincera do apelo de Jesus. E isto não significa que se tenha ou não razão, mas tão só que, como já se disse, o cristianismo não é fácil nem evidente. Como disse algures o Goldmundo, referindo-se a Jesus, “o rapaz era um radical”. E o que é interessante é que este rapaz radical foi mais cordial com o próprio diabo do que com os fariseus – claro que os episódios têm um valor narrativo distinto, sendo os diálogos com o diabo iniciais da vida pública de Jesus, e as diatribes anti-farisaicas já em Jerusalém, e mais claro ainda, que nada disto indica adesão ou comunhão com o demoníaco. Mas para mim, sempre me indicou que o estado de aprisionamento e cegueira demoníacos são estados de vida, e que por tal são “cristianizáveis”, ao passo que o legalismo racional e doutrinado não correspondem a nenhuma forma de vida mas tão só a um plano discursivo que pretende substituir a relação com o Deus vivo, com a lei gravada no coração. Leis de papel são e sempre foram medidas de opressão e alienação da vida.
    Não sei se me estou a fazer entender – deve ser do calor… Se falamos a partir da nossa vontade de conversão, temos o direito e o dever de tudo dizer, de deixar sair o que vai na alma. Só assim poderemos comungar vitalmente – o resto é conversa, precisamente conversa, blablabla que não corresponde a nada de vivido, de profundo, de autêntico. S. Francisco de Sales respondia a uma cristã que lhe escrevera dizendo que andava confusa, que ele Francisco muito se alegrava com a confusão dela, porque era indício da veracidade da sua conversão. Jesus pôs em questão toda a nossa natureza e cultura – inclusive a nossa “religiosidade” - oferecendo-se a si próprio como fundamento da nossa caminhada “em direcção” ao Pai. A Igreja é a comunhão destes caminhantes – o resto é natureza e cultura – “paganismos” romanos e outros que tais – e interrogá-los e interrogarmo-nos em nome de Jesus é nosso dever e sentimento cristão.
    Quanto á eclesiolatria e à papolatria – são idolatrias como outras, que todos temos à nossa maneira. Tendemos sempre a pôr no lugar de Deus, algo nosso conhecido e tranquilamente reconfortante, da moral ao dinheiro passando por todo o resto conforme a pessoa e a cultura. E, como é evidente, a Igreja é tão pecadora, falível e confusa como qualquer um de nós – e por isso a devemos amar e vigiar, porque a Igreja somos nós – e na certeza alegre e louca que há “um” elemento nela que garante a prevalência final contra as portas do inferno. Ninguém sabe – nem pode pretender saber! – é como. É que o rapaz radical tem como que a mania das surpresas.
    Não quero ser mal entendido. Muito prezo os papas, teólogos, bispos, santos, padres (um grandessíssimo obrigado ao sr. padre que este blogue fez!), leigos etc, e é com eles que cresço na fé. Sem a Igreja, a minha fé seria apenas um clamor no deserto de mim próprio. O que quero dizer é que esse crescimento e comunhão se dão a partir de Jesus. Sempre que Este pareça elidido ou substituído, levantemos o braço, nem que seja só para apresentar uma dúvida. Porque é Este que nos preenche o coração e no-lo converte ao amor verdadeiro que nos une a Deus e uns aos outros – mesmo que a maioria das vezes não O consigamos seguir…

    Um grande, grande abraço, e muito obrigado pela sua partilha de vivência cristã.

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  11. Vítor Mácula21 julho, 2005

    Outra vez!

    O comentário anterior entrou antes de eu digitar completamente o meu nome!

    As minhas desculpas.

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  12. That's a great story. Waiting for more. »

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