quinta-feira, março 24, 2011

OS MEDOS DA IGREJA

É, provavelmente, o medo o que mais paralisa os cristãos no seguimento fiel de Jesus Cristo. Na igreja actual há pecado e fragilidade, mas há sobretudo o medo de correr riscos. Começamos o terceiro milénio sem audácia para renovar criativamente a fé cristã. Não é difícil assinalar alguns destes medos.

Temos medo ao novo, como se «conservar o passado» garantisse automaticamente a fidelidade ao evangelho. É verdade que o Concílio Vaticano II afirmou de forma contundente que na Igreja deve haver uma «constante reforma», pois, «como instituição humana dela necessita permanentemente». No entanto, não é menos verdade que o que move a Igreja nestes tempos não é tanto um espírito de renovação, mas antes um instinto de conservação.

Temos medo de assumir as tensões e conflitos que traz consigo o procurar a fidelidade ao evangelho.

  • Calamo-nos quando devíamos falar;
  • inibimo-nos quando devíamos intervir.
  • Proíbe-se o debate de questões importantes para evitar posicionamentos que podem inquietar;
  • preferimos a adesão rotineira, que não traz problemas nem indispõe a hierarquia.

Temos medo da investigação teológica criativa. Medo de rever ritos e linguagens litúrgicas, que não favorecem hoje a celebração viva da fé. Medo de falar dos «direitos humanos» dentro da Igreja. Medo de reconhecer praticamente à mulher um lugar mais de acordo com o espírito de Jesus.

Temos medo de antepor a misericórdia acima de tudo, esquecendo que a Igreja não recebeu o «ministério do juízo e da condenação», mas sim o «ministério da reconciliação». Há medo de acolher os pecadores como Jesus fazia. Dificilmente se dirá hoje da Igreja que é «amiga de pecadores», como se dizia do seu Mestre.


Segundo o relato evangélico do passado Domingo, os discípulos caem por terra «muito assustados» ao ouvir uma voz que lhes diz: «Este é o meu Filho muito amado ... Escutai-. Mete medo escutar apenas Jesus. É o próprio Jesus que se aproxima, toca-lhes e diz-lhes: «Levantai-vos e não tenhais medo». Só o contacto vivo com Jesus nos podia libertar de tanto medo.

terça-feira, março 22, 2011

ESCUTAR JESUS NA SOCIEDADE ACTUAL

Há já alguns anos que era a religião que oferecia, à maioria das pessoas, critérios para interpretar a vida e princípios para a orientar com sentido de responsabilidade. Hoje, pelo contrário, são bastantes os que prescindem de Deus para enfrentar sós a sua vida, os seus desejos, medos e expectativas.

Não é tarefa fácil. Provavelmente, nunca foi tão difícil e problemático um indivíduo parar para pensar, reflectir e tomar decisões sobre si mesmo e sobre o importante da sua vida. Vivemos mergulhados numa «cultura da intranscendência» que liga as pessoas ao «aqui» e «agora», fazendo com que vivam só para o imediato, sem abertura alguma ao mistério último da vida. Movemo-nos numa «cultura do divertimento» que arranca as pessoas de si mesmo e as faz viver esquecidas das grandes questões que carregam no seu coração.

O homem de nossos dias aprendeu muitas coisas, está informado de quanto acontece no mundo que o rodeia, mas não sabe o caminho para se conhecer a si mesmo e construir a sua liberdade. Muitos subscreveriam a obscura descrição que o director de La Croix, G. Hourdin, fazia há alguns anos: «O homem está a tornar-se incapaz de querer, de ser livre, de julgar por si mesmo, de mudar o seu modo de vida. Está a converter-se em robot disciplinado que trabalha para ganhar o dinheiro que depois usufruirá numas férias colectivas. Lê as revistas da moda, vê as emissões de televisão que todos vêem. Aprende assim o que é, o que quer e como deve pensar e viver».

Temos necessidade, mais do que nunca, de parar, de fazer silêncio, de escutar mais a Deus revelado em Jesus. Essa escuta interior ajuda a viver na verdade, a saborear a vida nas suas raízes, a não a desbaratar de qualquer maneira, a não passar superficialmente diante do essencial. Escutando Deus encarnado em Jesus, descobrimos a nossa pequenez e pobreza, mas também a nossa grandeza de seres amados infinitamente por ele.

Cada um é livre para escutar Deus ou para lhe virar as costas.

Mas, em qualquer caso, há algo que todos devemos recordar, ainda que seja escandaloso e contra cultural: viver sem um sentido último é viver de maneira «insensata»; agir sem escutar a voz interior da consciência é ser um «inconsciente»

domingo, março 20, 2011

PERDIDOS NA ABUNDÂNCIA

Uma das caractesticas das sociedades avançadas é o excesso, o desmesurado, a profusão de ofertas, a multiplicação de possibilidades. Oferece-se-nos tudo, podemos experimentar tudo. Não é fácil viver assim. Atraídos por mil reclamos, podemos acabar atordoados e sem capacidade para cuidar e alimentar o que é essencial.


Os centros comerciais e os supermercados expõem um sortido incrível de produtos. Os restaurantes apresentam cartas e menus com toda a classe de combinações. Podemos seleccionar um número cada vez mais alargado de cadeias de televisão. As agências propõem-nos todo o tipo de viagens e de experiências. A Internet abre caminho a um número ilimitado de imagens, impressões e contactos.

Por outro lado, jamais a informação foi tão invasora. Esmaga-nos com dados, estatísticas e previsões. As notícias sucedem-se com rapidez, impedindo-nos a reflexão sossegada e a meditação. Encharcada de informação, a nossa consciência toma-se receptiva de tudo e de nada. É cada vez mais fácil cair na indiferença e na passividade.


Todo este clima tem as suas consequências.

Há um grande número de pessoas que dá mais atenção às necessidades artificiais, descurando-se o essencial. Vive-se para o exterior, inclinados para as novidades exteriores, ignorando-se todo o mundo interior. O excesso de informação e a hiper-solicitação do consumismo dissolvem a força das convicções. São muitos os que vivem entretidos no anedótico, sem projecto nem ideal algum. Pouco a pouco, as pessoas tomam-se mais frágeis e inconsistentes. Tudo é problema, inclusivamente as coisas mais elementares: dormir, ir para férias, engordar, envelhecer.


As vezes, de forma vaga e difusa, outras de forma mais clara e precisa, são bastantes os que sentem decepção e desencanto ao experimentar que este estilo de vida despersonaliza, esvazia interiormente e incapacita para viver duma maneira sã. Esta insatisfação é um chamamento a reagir. Não basta andar entretido, funcionar sem alma e viver só de pão. Precisamos de alguma mais... será que já nos demos conta?

segunda-feira, março 14, 2011

AS TENTAÇÕES DA IGREJA DE HOJE

A primeira tentação acontece no «deserto». Depois dum longo jejum, entregue ao encontro com Deus, Jesus sente fome. É nessa altura que o tentador lhe sugere agir, pensando em si mesmo e esquecendo o projecto do Pai:« Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães». Jesus, desfalecido mas cheio do Espírito de Deus, reage: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Não viverá buscando o seu próprio interesse. Não será um messias egoísta. Multiplicará pães quando vir os pobres com fome. Ele alimentar-se-á da Palavra de Deus.

Sempre que a Igreja procura o seu próprio interesse, esquecendo o projecto do reino de Deus, desvia-se de Jesus. Sempre que nós cristãos antepomos o nosso bem-estar às necessidades dos últimos, afastamo-nos de Jesus.

A segunda tentação acontece no «templo». O tentador propõe a Jesus fazer a sua entrada triunfal em Jerusalém, descen-do do alto como Messias glorioso. A protecção de Deus está assegurada. Os seus anjos «cuidarão» dele. Jesus reage rápido: «Não tentarás o Senhor teu Deus!». Não será um Messias triunfador. Não porá Deus ao serviço da sua glória. Não «fará sinais no céu». Só sinais para curar doentes.

Sempre que a Igreja põe Deus ao serviço da sua própria glória e «desce do alto» para mostrar a sua própria dignidade, desvia-se de Jesus. Quando nós, os seguidores de Jesus, procuramos «ficar bem», afastamo-nos dele.

A terceira tentação dá-se num «monte muito alto». De lá se divisam todos os reinos do mundo. Todos estão controlados pelo diabo, que faz a Jesus uma oferta assombrosa: dar-lhe-á todo o poder do mundo. Só uma condição: «Se prostrado me adorares». Jesus reage violentamente: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto». Deus não o chama a dominar o mundo como o imperador de Roma, mas a servir os que vivem oprimidos pelo seu império. Não será um Messias dominador mas servidor. O reino de Deus não se impõe com poder, oferece-se com amor.

A Igreja tem que afastar todas as tentações de poder, glória ou dominação, clamando com Jesus: «Vai-te Satanás». O poder mundano é uma oferta diabólica. Quando o procuramos, afastamo-nos de Jesus.

terça-feira, março 08, 2011

Carnaval – Entrudo: A apologia do rir

No carnaval, que coisa há-de ser objecto da nossa meditação, senão o riso? – desafia Karl Rahner. Não é a alegria sublime e celeste que é fruto do Espírito Santo, nem também a alegria de que falam, doce e suavemente, «os homens de juízo», e produz efeitos severos e azedos, a euforia do homem inócuo, equânime, mas vitalmente mesquinho. Não. É do riso, do verdadeiro que modula e nos abate e, em certas circunstâncias, nos leva a até às lágrimas. Riso que acompanha os chistes picantes ou insípidos, em que parecemos um pouco cândidos e pueris. Um riso que não é muito profundo e que a gente grave e, presumida da sua dignidade, toma a mal... É desse riso que falamos. Poder-se-á também meditar sobre ele? Sim e muito. É que também as coisas com graça são muito sérias… Será tal riso, como o concebemos, conveniente também ao homem espiritual? …

Seja-nos permitido uma apologia do riso. De repente, o riso dir-nos-á, rindo, coisas muito sérias. No livro mais pessimista da Sagrada Escritura, lemos: «Há um tempo para chorar e um tempo para rir; tempo para lamentar-se e tempo para dançar» (Ecl 3,4). Que tudo tem seu tempo, que o homem não tem nenhum lugar definitivo sobre a terra, nem tampouco um lugar seguro na vida interior do seu coração e do seu espírito. Que a vida significa mudança. Que, no fundo, seria renegar a condição de criatura pretender, como homem desta terra, ter sempre o mesmo estado de alma. Querer fabricar, numa mistura uniforme, a base de todas as virtudes e estados de alma que permanecesse, sempre e em todos os casos, justa. Que seria inumano, estóico, mas não cristão, escapar-se das tormentas da alma, do gozo que nos eleva aos infinitos e da tribulação que nos abate aos abismos, sob um firmamento sempre imutável de impassibilidade e carência de sensibilidade. Eis o sério de que nos fala o riso… Ai de vós! – diz o riso. Se quereis ser agora, neste tempo, o imutável, o eterno, não chegareis a ser senão o morto e o esgotado. Ri-te de mim – diz o riso… Ride algumas vezes, ride sem preocupações. Não temais um riso um pouco tonto, um pouco superficial. Tal superficialidade é mais adequada que uma atormentada melancolia, ditada apenas pela soberba espiritual, soberba que não pode aceitar ser um simples homem. Há verdadeiramente um tempo para rir. É lícito, pois, que aconteça, pois que também esse tempo foi criado por Deus. Eu, o riso, esse desvario pueril que dá cambalhotas e ri até às lágrimas, eu, fui criado por Deus… Deixai-me entrar na vossa vida. Não acontecerá nada, pois que tereis fartas ocasiões para chorar e entristecer-vos. Ride, pois esse riso é uma confissão de que sois homens. Confissão que, em si mesma, é o começo da confissão de Deus. Pois como é possível um homem confessar Deus, a não ser confessando que, na sua vida e pela sua vida, não é Deus, mas uma criatura que tem os seus tempos, dos quais um não é o outro? O riso é um louvor a Deus porque concede que os homens sejam homens.

Mas este riso é algo mais… Falamos de um riso que se desprende e que brota de um coração infantil e sereno. Só pode acontecer em quem não é «descrente», mas um daqueles que, como Cristo (He 4, 15: cf 1 Pe 3, 8), têm, por amor a todos e a cada um em particular, «simpatia» livre, aberta que permite adoptar e ver tudo como é: o grande, grande; o pequeno, pequeno; o sério, seriamente; o jocoso, alegremente… Contudo, só é capaz disso quem não está cheio de si mesmo, mas é livre e, como Cristo, se pode «compadecer» com todos. Aquele que sente, por todos e cada um, essa secreta simpatia na qual e perante a qual cada um se consegue expressar individualmente. Isto possui apenas aquele que ama. E assim o rir-se é sinal de amor…

Todavia este riso inocente dos filhos de Deus é algo mais… No livro da Sabedoria (4, 18), se diz dos maus que o Senhor rir-se-á deles. Deus ri o riso do leviano, do convencido, do insolente, o riso da soberania divina sobre toda a miserável confusão de uma história do mundo sombria de dor e vulgar. Deus ri. O nosso Deus ri. Ri descontraído. Poder-se-á dizer matreiro e tranquilo. Ri compassivo e consciente, como que se alegrando do espectáculo transbordante de lágrimas desta terra. Pode fazê-lo, pois que Ele também chorou connosco, triste até à morte e sentindo-se desamparado por Deus…

Contudo, este riso inocente do coração amante é ainda algo mais. Nas bem-aventuranças de S. Lucas (6, 21) está escrito: Bem-aventurados os que chorais agora por que haveis de rir. Certamente que é um riso prometido aos que choram, que levam a cruz, que são odiados e perseguidos por causa do Filho do homem. Porém é-lhes prometido o riso como prémio… Um rir, não apenas uma suave felicidade, um júbilo ou uma alegria que faça brotar do coração lágrimas de satisfação exultante. Tudo isto também. Mas também o riso. Não só serão enxugadas as lágrimas e o nosso pobre coração será inundado até à embriaguez de uma grande alegria que nos leva a crer na alegria eterna. Não, riremos. Riremos como Aquele que mora nos céus, riremos como se prediz no salmo 52 (v. 8) para o justo.

(de Karl Rhaner, Kleines Kirchenjahr, 1954 – transcrito na Voz Portucalense de 23/02/2011)

quarta-feira, março 02, 2011

Ministro das Minorias Religiosas do paquistão assassinado em Islamabab

Criminosos mataram nesta quarta-feira o ministro paquistanês das Minorias Religiosas, o cristão Shahbaz Bhatti, em Islamabad.

O assassinato deveu-se a uma polémica no país de maioria muçulmana provocada pela tentativa de reformar a lei que prevê pena de morte em casos de blasfémia.

No início de Janeiro, um polícia da tropa de elite matou, em plena rua, um governador que defendia publicamente uma cristã condenada à pena capital por ter insultado o profeta Maomé.

Nesta quarta-feira, homens armados abriram fogo contra o veículo do ministro num bairro de classe média alta da capital paquistanesa, informou à AFP o polícia Abdul Majid.

"Ele chegou morto ao hospital", declarou o médico Azmatullah Qureshi, porta-voz de um dos principais hospitais de Islamabad.
Fonte: DN

terça-feira, março 01, 2011

Navarra: proposta cheque escolar


Como sou muito progressista, não sei que fazer:
  • rasgo cheque
  • perco a liberdade
  • gasto mais
  • e, por cima, levo os meus filhos a uma escola com piores resultados académicos.
Pois sou muito progressista...
O cheque escolar dá mais liberdade aos pais para escolherem a educação dos seus filhos.