segunda-feira, março 14, 2011

AS TENTAÇÕES DA IGREJA DE HOJE

A primeira tentação acontece no «deserto». Depois dum longo jejum, entregue ao encontro com Deus, Jesus sente fome. É nessa altura que o tentador lhe sugere agir, pensando em si mesmo e esquecendo o projecto do Pai:« Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães». Jesus, desfalecido mas cheio do Espírito de Deus, reage: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Não viverá buscando o seu próprio interesse. Não será um messias egoísta. Multiplicará pães quando vir os pobres com fome. Ele alimentar-se-á da Palavra de Deus.

Sempre que a Igreja procura o seu próprio interesse, esquecendo o projecto do reino de Deus, desvia-se de Jesus. Sempre que nós cristãos antepomos o nosso bem-estar às necessidades dos últimos, afastamo-nos de Jesus.

A segunda tentação acontece no «templo». O tentador propõe a Jesus fazer a sua entrada triunfal em Jerusalém, descen-do do alto como Messias glorioso. A protecção de Deus está assegurada. Os seus anjos «cuidarão» dele. Jesus reage rápido: «Não tentarás o Senhor teu Deus!». Não será um Messias triunfador. Não porá Deus ao serviço da sua glória. Não «fará sinais no céu». Só sinais para curar doentes.

Sempre que a Igreja põe Deus ao serviço da sua própria glória e «desce do alto» para mostrar a sua própria dignidade, desvia-se de Jesus. Quando nós, os seguidores de Jesus, procuramos «ficar bem», afastamo-nos dele.

A terceira tentação dá-se num «monte muito alto». De lá se divisam todos os reinos do mundo. Todos estão controlados pelo diabo, que faz a Jesus uma oferta assombrosa: dar-lhe-á todo o poder do mundo. Só uma condição: «Se prostrado me adorares». Jesus reage violentamente: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto». Deus não o chama a dominar o mundo como o imperador de Roma, mas a servir os que vivem oprimidos pelo seu império. Não será um Messias dominador mas servidor. O reino de Deus não se impõe com poder, oferece-se com amor.

A Igreja tem que afastar todas as tentações de poder, glória ou dominação, clamando com Jesus: «Vai-te Satanás». O poder mundano é uma oferta diabólica. Quando o procuramos, afastamo-nos de Jesus.

terça-feira, março 08, 2011

Carnaval – Entrudo: A apologia do rir

No carnaval, que coisa há-de ser objecto da nossa meditação, senão o riso? – desafia Karl Rahner. Não é a alegria sublime e celeste que é fruto do Espírito Santo, nem também a alegria de que falam, doce e suavemente, «os homens de juízo», e produz efeitos severos e azedos, a euforia do homem inócuo, equânime, mas vitalmente mesquinho. Não. É do riso, do verdadeiro que modula e nos abate e, em certas circunstâncias, nos leva a até às lágrimas. Riso que acompanha os chistes picantes ou insípidos, em que parecemos um pouco cândidos e pueris. Um riso que não é muito profundo e que a gente grave e, presumida da sua dignidade, toma a mal... É desse riso que falamos. Poder-se-á também meditar sobre ele? Sim e muito. É que também as coisas com graça são muito sérias… Será tal riso, como o concebemos, conveniente também ao homem espiritual? …

Seja-nos permitido uma apologia do riso. De repente, o riso dir-nos-á, rindo, coisas muito sérias. No livro mais pessimista da Sagrada Escritura, lemos: «Há um tempo para chorar e um tempo para rir; tempo para lamentar-se e tempo para dançar» (Ecl 3,4). Que tudo tem seu tempo, que o homem não tem nenhum lugar definitivo sobre a terra, nem tampouco um lugar seguro na vida interior do seu coração e do seu espírito. Que a vida significa mudança. Que, no fundo, seria renegar a condição de criatura pretender, como homem desta terra, ter sempre o mesmo estado de alma. Querer fabricar, numa mistura uniforme, a base de todas as virtudes e estados de alma que permanecesse, sempre e em todos os casos, justa. Que seria inumano, estóico, mas não cristão, escapar-se das tormentas da alma, do gozo que nos eleva aos infinitos e da tribulação que nos abate aos abismos, sob um firmamento sempre imutável de impassibilidade e carência de sensibilidade. Eis o sério de que nos fala o riso… Ai de vós! – diz o riso. Se quereis ser agora, neste tempo, o imutável, o eterno, não chegareis a ser senão o morto e o esgotado. Ri-te de mim – diz o riso… Ride algumas vezes, ride sem preocupações. Não temais um riso um pouco tonto, um pouco superficial. Tal superficialidade é mais adequada que uma atormentada melancolia, ditada apenas pela soberba espiritual, soberba que não pode aceitar ser um simples homem. Há verdadeiramente um tempo para rir. É lícito, pois, que aconteça, pois que também esse tempo foi criado por Deus. Eu, o riso, esse desvario pueril que dá cambalhotas e ri até às lágrimas, eu, fui criado por Deus… Deixai-me entrar na vossa vida. Não acontecerá nada, pois que tereis fartas ocasiões para chorar e entristecer-vos. Ride, pois esse riso é uma confissão de que sois homens. Confissão que, em si mesma, é o começo da confissão de Deus. Pois como é possível um homem confessar Deus, a não ser confessando que, na sua vida e pela sua vida, não é Deus, mas uma criatura que tem os seus tempos, dos quais um não é o outro? O riso é um louvor a Deus porque concede que os homens sejam homens.

Mas este riso é algo mais… Falamos de um riso que se desprende e que brota de um coração infantil e sereno. Só pode acontecer em quem não é «descrente», mas um daqueles que, como Cristo (He 4, 15: cf 1 Pe 3, 8), têm, por amor a todos e a cada um em particular, «simpatia» livre, aberta que permite adoptar e ver tudo como é: o grande, grande; o pequeno, pequeno; o sério, seriamente; o jocoso, alegremente… Contudo, só é capaz disso quem não está cheio de si mesmo, mas é livre e, como Cristo, se pode «compadecer» com todos. Aquele que sente, por todos e cada um, essa secreta simpatia na qual e perante a qual cada um se consegue expressar individualmente. Isto possui apenas aquele que ama. E assim o rir-se é sinal de amor…

Todavia este riso inocente dos filhos de Deus é algo mais… No livro da Sabedoria (4, 18), se diz dos maus que o Senhor rir-se-á deles. Deus ri o riso do leviano, do convencido, do insolente, o riso da soberania divina sobre toda a miserável confusão de uma história do mundo sombria de dor e vulgar. Deus ri. O nosso Deus ri. Ri descontraído. Poder-se-á dizer matreiro e tranquilo. Ri compassivo e consciente, como que se alegrando do espectáculo transbordante de lágrimas desta terra. Pode fazê-lo, pois que Ele também chorou connosco, triste até à morte e sentindo-se desamparado por Deus…

Contudo, este riso inocente do coração amante é ainda algo mais. Nas bem-aventuranças de S. Lucas (6, 21) está escrito: Bem-aventurados os que chorais agora por que haveis de rir. Certamente que é um riso prometido aos que choram, que levam a cruz, que são odiados e perseguidos por causa do Filho do homem. Porém é-lhes prometido o riso como prémio… Um rir, não apenas uma suave felicidade, um júbilo ou uma alegria que faça brotar do coração lágrimas de satisfação exultante. Tudo isto também. Mas também o riso. Não só serão enxugadas as lágrimas e o nosso pobre coração será inundado até à embriaguez de uma grande alegria que nos leva a crer na alegria eterna. Não, riremos. Riremos como Aquele que mora nos céus, riremos como se prediz no salmo 52 (v. 8) para o justo.

(de Karl Rhaner, Kleines Kirchenjahr, 1954 – transcrito na Voz Portucalense de 23/02/2011)

quarta-feira, março 02, 2011

Ministro das Minorias Religiosas do paquistão assassinado em Islamabab

Criminosos mataram nesta quarta-feira o ministro paquistanês das Minorias Religiosas, o cristão Shahbaz Bhatti, em Islamabad.

O assassinato deveu-se a uma polémica no país de maioria muçulmana provocada pela tentativa de reformar a lei que prevê pena de morte em casos de blasfémia.

No início de Janeiro, um polícia da tropa de elite matou, em plena rua, um governador que defendia publicamente uma cristã condenada à pena capital por ter insultado o profeta Maomé.

Nesta quarta-feira, homens armados abriram fogo contra o veículo do ministro num bairro de classe média alta da capital paquistanesa, informou à AFP o polícia Abdul Majid.

"Ele chegou morto ao hospital", declarou o médico Azmatullah Qureshi, porta-voz de um dos principais hospitais de Islamabad.
Fonte: DN

terça-feira, março 01, 2011

Navarra: proposta cheque escolar


Como sou muito progressista, não sei que fazer:
  • rasgo cheque
  • perco a liberdade
  • gasto mais
  • e, por cima, levo os meus filhos a uma escola com piores resultados académicos.
Pois sou muito progressista...
O cheque escolar dá mais liberdade aos pais para escolherem a educação dos seus filhos.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Protesto da Geração À Rasca

PROTESTO APARTIDÁRIO, LAICO E PACÍFICO.
Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remune-rados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores inter-mitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Protestamos:
  • Pelo direito ao emprego! Pelo direito à educação!
  • Pela... melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade!
  • Pelo reconhecimento das qualificações, competência e experiência, espelhado em salários e contratos dignos!
Porque não queremos ser todos obrigados a emigrar, arrastando o país para uma maior crise económica e social!

Veja aqui

O nosso dinheiro

É saudável a estima pelos dinheiros e bens públicos. Substituirá uma mentalidade de menosprezo que conduzia a autênticos vandalismos em desperdícios sobre o que «não era de ninguém».

Dizem os entendidos e até os desentendidos que é neste mês que vamos todos saber experiencialmente o que é a crise. Uns mais que outros. O que era uma teoria, uma ameaça, torna-se uma realidade notória na carteira, no banco, à mesa, em viagem, nos bens essenciais, na gestão doméstica, no salário mensal. Paralelamente há uma nova consciência do essencial e do supérfluo. Mas talvez o que mais se acentua é a noção de que o Estado não é apenas aquele monstro que nos rouba e engana. O Estado somos nós. Cada vez o povo sente mais o dinheiro que lhe paga nos impostos que sobem, nos montantes que injustamente o Estado distribui por quem não merece. E no roubo que constitui para a comunidade qualquer desvio de dinheiro ou bens que pertencem ao Estado. Assiste-se inclusivamente a uma espécie de policiamento sobre o carro, o salário, os benefícios de quem é funcionário do Estado. Diz-se simplesmente que é o “nosso dinheiro”. E cada cidadão como que se torna fiscal e administrador dos bens públicos julgando que quer e pode, mesmo sem mandar.

Convém dizer que é saudável a estima pelos dinheiros e bens públicos. Substituirá uma mentalidade de menosprezo que conduzia a autênticos vandalismos em desperdícios sobre o que “não era de ninguém”. Quando afinal é bem de todos nós.

Nesta transição forçada de mentalidade há muito juízo precipitado e incompetente na avaliação dos gastos públicos essenciais em saúde, transportes, segurança social, apoios a desprotegidos, como se se tratasse de usurpadores de bens de todos. O tempo certamente ajudará a uma clarificação. Mas é urgente um discernimento para que não aconteçam juízos nervosos e precipitados sobre aparências e interesses imediatos.

A informação a céu aberto pode prevenir muitos abusos. Mas pode suscitar ajustes de contas selvagens, esquecendo o que é antes de tudo um Estado: uma casa de todos, onde todos têm os seus direitos e deveres e onde se deve reflectir o sentido de comunidade e partilha. É isto que o cristianismo pode acrescentar de novo a um debate sobre o público e o privado, a justiça nas retribuições, apoio aos mais desfavorecidos, serviço à causa pública, a política como o empenho pela cidade.

A presente crise já começou a dar alguns bons frutos. Mas interessa respeitar os tempos e as etapas para que possam reinar entre nós a justiça e a paz.

António Rego

domingo, fevereiro 27, 2011

Por uma espiritualidade do dinheiro

Sei que a muita gente este título parecerá uma blasfémia. O nosso Ocidente cristão estabeleceu uma barreira tão impermeável entre o espiritual e o material que tornou obtuso, à partida, qualquer diálogo entre a espiritualidade e a produção e circulação de riqueza. Para não falar já do
funcionamento da economia ou das formas diversas do capitalismo. São campos completamente separados. Quanto muito julgaremos legível a formulação do filósofo Jacques Ellul avançada como repto: «é necessário profanar o dinheiro», isto é, restitui-lo à sua função de instrumento material de troca, desinvestindo-o da sacralidade simbólica com que é tratado.

Mas defender “uma espiritualidade do dinheiro” é, certamente, caminhar nesse sentido. A leitura da Bíblia também aqui pode ser instrutiva. O Antigo Testamento, por exemplo, faz uma apreciação fundamentalmente positiva acerca dos bens e da prosperidade. Mas a diferença entre ricos e pobres é sempre vista como um escândalo intolerável. Toda a legislação social que enche o Livro do Deuteronómio não visa promover o remendo da esmola, mas pretende sim (e ousadamente) assegurar os direitos dos pobres. Institucionaliza-se na chamada «Lei da Aliança» um verdadeiro pacto social, que passa por medidas espantosamente concretas como o perdão das dívidas ou uma redistribuição periódica dos bens como meio de travar os cíclicos fenómenos de empobrecimento dos grupos sociais mais frágeis.

Por vezes ouve-se repetir apressadamente a sentença «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21) como certificação de que Jesus virou as costas ao dinheiro. O Evangelho não conta isso. O episódio em casa de Zaqueu, o rico cobrador de impostos, mostra antes como o que acontece é uma mudança de papéis. O dinheiro deixa de ser amontoado e usado em função do próprio para passar a ser reparador de injustiças e antídoto contra a pobreza. Como explica o teólogo Daniel Marguerat, a interpelação de Jesus leva-nos mais longe, pois ele não pergunta apenas, “que fazes tu do teu dinheiro?”, mas coloca-nos perante esta incontornável questão: «o que é que o teu dinheiro fez de ti?».

Tolentino Mendonça

sábado, fevereiro 26, 2011

Um estudo da Universidade de Harvard dá razão ao Papa na luta contra a sida

Um estudo realizado pela Universidade Harvard deu razão à posição de Bento XVI sobre a SIDA, afirmando que um comportamento sexual responsável e a fidelidade ao próprio cônjuge foram factores que determinaram uma drástica diminuição da epidemia no Zimbábue.

Quem explica, em sua última pesquisa, é Daniel Halperin, do Departamento de Saúde Global da População da universidade norte-americana, que, desde 1998, estuda as dinâmicas sociais que causam a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis nos países em vias de desenvolvimento.

Halperin usou dados estatísticos e análises sobre o estudo de campo, tais como entrevistas e focus group, o que lhe permitiu coligir depoimentos de pessoas que pertencem a grupos sociais mais desfavorecidos.

A tendência de dez anos é evidente: de 1997 a 2007, a taxa de infecção entre adultos diminuiu de 29% a 16%. Após a sua pesquisa, Halperin não hesita em afirmar: a repentina e clara diminuição da incidência da SIDA deve-se "à redução de comportamentos de risco, como o sexo fora do casamento, com prostitutas e esporádico".

O estudo, publicado em PloSMedicine.org, foi financiado pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, da qual Halperin foi conselheiro, e pelo Fundo das Nações Unidas para a População e Desenvolvimento.

"Com este estudo, Halperin promove uma reflexão séria e honesta sobre as políticas até agora adoptadas pelas principais agências de combate à SIDA nos países em desenvolvimento", afirma o jornal L'Osservatore Romano, ao dar a notícia, na sua edição de 26 de fevereiro.

Segundo o estudo, fica claro que a drástica mudança no comportamento sexual da população do Zimbábue "recebeu o apoio de programas de prevenção na media e de projetcos educativos patrocinados pelas igrejas".

Há poucos anos atrás, Halperin interrogava-se como é possível que as políticas de prevenção "mais significativas tenham sido feitas até agora baseando-se em evidências extremamente fracas", ou seja, na ineficácia dos preservativos.

Em suma, segundo o estudo de Halperin, é necessário "ensinar a evitar a promiscuidade e promover a fidelidade", apoiando iniciativas que visem construir na sociedade afectada pela SIDA uma nova cultura.

Como disse Bento XVI, é necessário promover uma "humanização da sexualidade".

Fonte: Zenit

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Mulheres que frequentam Igreja são mais felizes

Um estudo recente mostra que as mulheres que frequentam regularmente a Igreja são mais imunes aos altos e baixos da vida, e geralmente são mais felizes.

Alexander Ross, do Instituto de Ciências Psicológicas, é o autor da pesquisa, que teve como objectivo investigar o grau de felicidade das mulheres americanas nos últimos 36 anos.

Ross descobriu que ir regularmente à igreja é um factor significativo na felicidade das mulheres. Verificou-se, de fato, que uma inflexão desta frequência no período 1972-2008 teve um impacto directo sobre a felicidade das mulheres que participaram do estudo.

"A queda da frequência ao longo do tempo, um comportamento associado a uma menor felicidade geral, explica, em parte, o declínio da felicidade das mulheres", sublinhou Ross

Fonte: Zenit

Padre português, melhor futebolista

O padre português Marco Gil foi considerado o melhor jogador da Champions Clerum – torneio europeu de futsal para sacerdotes católicos – que terminou nesta quinta-feira, em Kielce (Polónia).

Em declarações à Agência Ecclesia, o padre e capitão da selecção portuguesa afirmou que trocava o troféu individual “pela final” do torneio.

Depois de ganharem os cinco primeiros jogos que realizaram no campeonato, os padres portugueses escorregaram ante a anfitriã Polónia (campeã do evento). Na disputa do terceiro lugar, foram derrotados ainda pela Bósnia-Herzegovina.

Naqueles jogos “as coisas não correram como esperávamos” e “cometemos erros atrás de erros”, disse o padre Marco Gil.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

A sexualidade e a Igreja Católica

«É interessante ver que Jesus, perante a sexualidade, mesmo confrontado com desvios, é tolerante e perdoa. A Igreja parece ter posto o acento no sexo e nos seus desvios, mas Jesus o que condenou de forma veemente foi fundamentalmente a ganância, a avareza, a opressão: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." É necessário distinguir entre a Bíblia, onde se encontra um dos livros mais exaltantes do amor erótico, que é o Cântico dos Cânticos, e, depois, o mal-estar do cristianismo histórico em relação à sexualidade, que provém fundamentalmente dos gnósticos e de Santo Agostinho. Santo Agostinho é herdeiro de uma escola gnóstica, que é o maniqueísmo, que leva a gnose à radicalidade.

Então, Santo Agostinho trouxe também problemas...
Ele é um génio, mas trouxe ao Ocidente e ao cristianismo histórico verdadeiras tragédias do ponto de vista sexual. Ele era maniqueu e, a partir do maniqueísmo, tinha resolvido o problema do mal: há dois princípios, um do bem e outro do mal. Há uma questão que se coloca sobretudo aos crentes: se Deus é infinitamente bom e omnipotente, como se explica o mal? Através do maniqueísmo, ele tinha resolvido o problema. Mas, uma vez convertido, precisa de encontrar uma solução, pois o cristianismo diz que Deus, quando olhou para o mundo, viu que tudo era bom. Donde vem então o mal? Quando se converte ao cristianismo, Santo Agostinho tem de encontrar a origem do mal. Vai à Carta aos Romanos, de São Paulo, e lê: "Adão, no qual todos pecaram." Mas o grego (ele só conhecia o latim) diz: "Porque todos pecaram." Uma coisa é Adão ser o primeiro que peca, outra é dizer que, nele, todos pecaram. E de tal modo pecaram, que todos transportam esse pecado, que tem uma origem sexual e se transmite sexualmente. Este é o mal que vem ao Ocidente através da gnose, do maniqueísmo, de Santo Agostinho. Todos são concebidos em pecado e desse pecado original só o baptismo liberta. Assim, não hesitou em "enviar" para o Inferno as crianças não baptizadas, porque vinham com o pecado original»...

Num dos seus textos, diz que a Igreja perdeu a credibilidade em termos de doutrina sexual. É assim?
A sexualidade também tem a ver com o prazer e este confronta-se com o poder. Na medida em que a Igreja se tornou numa instituição de poder, tem muita dificuldade em lidar com o prazer e a autonomia. Não sabe, por isso, como lidar com a sexualidade, com as pessoas que estão no mundo de modo autónomo. Essa é uma das questões fundamentais da Igreja.

Por isso surgem as questões relativas ao planeamento familiar, aborto, eutanásia...
A Igreja lutou contra a modernidade, embora, por outro lado, os grandes valores da modernidade venham, fundamentalmente, da Bíblia. Não é por acaso que é no Ocidente que se dá a modernidade, a secularização, a separação da Igreja e do Estado, que tem a ver com a autonomia, os direitos humanos... São valores que vêm da Bíblia, mas que os iluministas tiveram de impor contra a Igreja oficial.
Há um Papa que proibiu a leitura da Bíblia, outro refere-se à "detestável doutrina" dos direitos humanos. No entanto, são valores que vêm fundamentalmente da Bíblia. Afirmam-se a partir da ideia de um Deus transcendente, que cria por amor, livremente. Se Deus cria livremente, só pode criar criaturas autónomas, homens e mulheres livres, e as realidades terrestres seguem as suas leis, sem precisarem da tutela da Igreja. Por outro lado, o cristianismo trouxe ao mundo a ideia da dignidade divina de todos os seres humanos, independentemente da cor, etnia, sexo, posição social, nacionalidade ou religião.

Anselmo Borges em entrevista à Pública (06.02.2011)