Tenho muitos amigos, pessoais e "ideológicos", que votam "Sim".
Conheço muita gente à qual nada me liga
(nem gostos, nem desgostos), que votará, como eu, "Não".

Isto mostra que, apesar dos esforços desajeitados de alguns,
não estamos nem numa guerra de partidos nem num choque de claques nem numa continuação, por outros meios, do conflito do Iraque.
Por que é que, em síntese, digo sim ao "Não", e não ao "Sim"?
Sem preocupações de sistematização ou ciência, ficam aqui alguns motivos.
1. Não gostava de ver o aborto transformado, de medida extrema e gravíssima,
em prática comum de contracepção. Não gostaria que passasse de mal maior a mal menor, de excepção a regra.
2. Não quereria ver o Estado decidir pela mulher que aborta, mas
também não gostaria que deixasse de dar um sinal. E este sinal terá de ser em desfavor da banalização do aborto.
3. Não quero julgar quem deve decidir
(a mulher e o homem responsável, que nunca surge na imagem), mas precisa de haver uma forma,
na lei, de assinalar a defesa de dois valores a dignidade da potencial mãe e a dignidade do potencial filho.
4.
A protecção da vida intra-uterina não deriva de uma crença, de um mito, ou de um princípio de fé, embora possa também envolver tudo isso.
O avanço da técnica permite saber, com razoável certeza, o que se passa dentro da mulher, e quando é que uma vida, diferente da sua, começa. Não vale assim a pena invocar a autoridade de prelados e santos, meritórios e eloquentes, que viveram muito antes de se poder sequer suspeitar como funciona o mistério.
5. Quando a actual lei recusa a criminalização, mesmo tratando-se da terminação de uma existência, sob argumentos de protecção da vida ou da saúde da mulher (física e psíquica), da sua autodeterminação (nos casos de violação), ou de eugenismo (situações de malformação do feto), claro que admite haver bens superiores à vida intra-uterina. Isso é discutível, mas entende-se o choque que causaria, em muitos meios, uma medida diversa.
Outra coisa é fazer com que a mesma vida intra-uterina ceda, sem haver perigo iminente que o remotamente justifique.
Claro que este problema não existe, nem provavelmente nenhum, para quem ache que não há aqui vida alguma em jogo.
6. Não quero, por princípio, que uma lei pública viole a consciência privada. A decisão sobre a vida será tomada por uma pessoa humana, e pelos elementos que a rodeiam, material e espiritualmente. Mas
não vejo que a comunidade tenha, financeiramente e moralmente, que sustentar uma opção da qual discorda.
7. No meio da discussão, perdeu-se de vista tudo
aquilo em que o Estado dizia investir, da educação à prevenção. Dizer "Não" é obrigar a que se volte a olhar, com seriedade, para essa política, a única que, verdadeiramente, sustentará uma sociedade sem abortos.
Nuno Rogeiro escreve no JN